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Luiz Carlos Merten

29 Fevereiro 2012 | 18h28

Eu, às vezes, me pergunto – como as pessoas, sensatamente, podem levar críticos a sério? Como integrante da categoria, não consigo. E nem me levo excessivamente a sério. Mas tem gente que se acha… Assisti hoje pela manhã a ‘W/E’, o longa de Madonna sobre o romance do século (20), entre Wallis Simpson e o rei Eduardo, o homem que renunciou ao trono por amor. O filme foi exibido no ano passado no Lido, fora de concurso. Madonna foi tratada a pontapés. Com alguma indulgência, disseram que ela estava superséria, em sua nova persona de cineasta. E o filme foi rotulado de melodrama banal para baixo. A persona de diretora nem era tão nova assim, pois Madonna já havia feito, há uns três ou quatro anos, aquele ‘Dirty, Filthy Thing’. O filme anterior era godardiano. Imagino o risinho irônico dos coleguinhas. Godard é meu! Te manda, Madonna. Ela pegava um personagem marginal, sórdido, e o tratava num registro de metalinguagem. Muito interessante. Madonna agora muda o tom e o estilo. O filme dela engole todinho ‘O Discurso do Rei’, que nunca me fez a cabeça. ‘O Discurso’ ganhou o Oscar. Madonna sequer foi indicada. Seria demais para meus pobres colegas admitirem que uma popstar, e usam a definição no sentido mais pejorativo, possa ser inteligente. Se fosse burra, como eles imaginam, não seria Madonna. Melodrama banal? Se há uma coisa que ‘W/E’ não é, é isso. A narrativa se desenvolve em dois planos. O romance do século e, na época atual, uma burguesa insatisfeita com o marido e obcecada pelo caso. Ambas se chamam Wallis. A da atualidade tem um caso com um segurança russo, Evgeni. W/E, de novo. Todo mundo acha que Madonna se projeta na Wallis antiga por ter sido uma celebridade. O filme é menos óbvio que isso. Numa cena, um comentário em of diz que Eduardo não era dominado por Wallis – como seu irmão e sucessor, o gago Bertie, é dominado pela mulher. Ele era possuído, possessed, por ela. O tema de Madonna é justamente essa possessão, que não é demoníaca. Como se constroi isso na tela? Por meio de uma mise-en-scène baseada no movimento circular. A câmera está sempre se movendo. Travellings e panorâmicas, mais a música, criam um efeito hipnótico e encantatório. Uma cena impressiona. Wallis e Eduardo estão na sala da casa dela. Wallis ainda é casada com outro. Ela prepara um drinque para Sua Alteza. O jogo de mãos, filmado em detalhes, cria um balé que tem contraponto nos gestos do (ainda) príncipe, que fuma. Que que é aquilo? Será que Madonna viu ‘Pickpocket’? Duvido que algum crítico tenha perguntado isso na coletiva do Lido? Na cabeça deles, ela é analfabeta, nem deve saber quem é Robert Bresson. Sem dúvida que a parte ‘antiga’ é melhor que a contemporânea, mas aquela não existiria sem essa, não faria sentido para nós. “Só nos fazem mal aqueles a quem autorizamos que façam isso’, diz a duquesa. É uma personagem complexa e apaixonante. De cara, é agredida pelo primeiro marido e perde o bebê, o que a impedirá de engravidar do seu príncipe. São parasitas, ele a priva de uma nacionalidade, e ela cede. Por amor? Por responsabilidade. Como abandonar um homem que renunciou a um trono? E ela carrega a culpa de não haver correspondido, de não lhe haver dado a descendência que Eduardo queria. Ele escapou da sua prisão – já era o subtexto de ‘O Discurso do Rei’, a investidura e o cerimonial do cargo como uma cadeia dourada. Cria uma prisão para a sua Wallis, que dançará, figuradamente, até a morte (dele). Confesso que fiquei meio em choque. Que raio de gente se acha superior e se recusa a ver o que é tão evidente?