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Luiz Carlos Merten

18 Fevereiro 2012 | 06h26

BERLIM – Nas minhas correrias de ontem nem falei do concorrente canadense na verdade canadense/africano, War Witch, do qual gostei muito. Mas temo que o filme de Kim Nguyen possa ser considerado deja vu pelo juri presidido por Mike Leigh, na medida em que incorpora elementos de dois verncedores do Urso de Ouro – a batata interoduzida na vagina da garota de La Teta Assustada, de Claudia Llosa, e a menina nascida do estupro de guerra de Zbernica, cuja diretora eh a bosnia Jasmilla… Sempre esqueco o sobrenome. Mas War Witch me pareceu bem novo e original, com as erupcoes dos fantasmas que soh ela veh na selva e a permanente presenca dos pais, que ela foi forcada a matar, ao ser capturada por rebeldes, e que aparecem a todo momento para pedir que ela os enterre. A garota, fragilizada no meio da guerrilha, encontra apoio no soldado albino e os dois fogem. Ele a leva numa viagem a uma comunidade de albinos no interior da Africa e depois procura o que eh raro, uma galinha branca, para que ela concorde em se casar com ele. Boa parte do filme eh contada pela maeh para o bebeh que ela teme vir a odiar, por ser um produto da violencia, e tudo eh embalado numa trilha nota 10 de cantos angoleses. Sin ceramente, meus dois filmes do coracaoh aqui na Berlinale de 2012 foram esse e o hungaro Just the Wind, de Bence Fliegauf, e ontem ocorreu uma coisa magica – uma mulher no hotel me perguntou quais os meus favoritos, eu citei entre eles o hungaro e ela me disse, Aqui estag e era o garoto do filme. Ele me sorriu de um jeito tah feliz por eu ter gostado do filme, me abracou e eu agorfa tenho de tomar um pouco de folego, porque sinto que vou chorar. Num mundo marcado pela indiferenca, pela brutalidade, pelo culto do poder e do dinheiro – aquilo que os novos diretores de Hollywood nos anos 1950 criticavam como os naoh valores do sonho americano, mas eles voltaram -, saoh essas pequenas coisas, que a vida e os filmes me oferecem, que me levam n naoh perder a esperanca nem a ternura, jamas. Como disse, Just the Wind e War Witch saoh meus concorrentes do coracaoh. Racionalmente, vou ficar feliz se ganharam os Taviani, com Cesare Deve Morire, o portuga, Tabu, de Miguel Gomes, que jah venceu ontem o premio da critica, e se tiver de vencer um alemaoh que seja Barbara, de Christian Petzold (e que, se uma atriz alemah tiver de vencer, que seja Nina Hoss). Valeu a pena ter ido aa entrega do premio da Fipresci, na Filmhaus do Sony Center, menos pelo champanhe do que pelo discurso de Miguel Gomes, que agradeceu a seus mestres – Manoel de Oliveira, Pedro Costa e Joaoh Cesar Monteiro -, por lhe haverem aberto esse caminho completamente autoral, mostrando que um cinema exigente e barato, independentermente de mercado, era possivel em Portugal. Falou bonito, o Miguel.