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Cultura » Walter Salles, ainda o mercado

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Luiz Carlos Merten

05 Setembro 2008 | 08h36

Transcrevi ontem um trecho da entrevista que fiz com Walter Salles no ‘Caderno 2’, em que ele falava de filmes como a ‘Iracema’ de Jorge Bodanzky. Hoje, agora, vou transcrever outro trecho que não pude utilizar na entrevista, por uma questão de espaço – eram várias pessoas falando e eu precisava de um encadeamento no que elas diziam sem dispor de muita centimetragem. Havia formulado para o Walter mais ou menos essa pergunta – ele não tem feito, ou não faz, filmes com as Majors do Brasil. Num cinema como o brasileiro, financiado pela renúncia fiscal, não parece muito importante se um filme se paga na bilheteria, ou não. Afinal, todo mundo já ganhou antes e até o investidor não perde dinheiro, porque o dinheiro é público e ele ganha seu retorno em imagem. Só que a questão do mercado ultrapassa o êxito de público. Um filme só existe se for visto. Perguntei como ele encarava a questão? A seguir, a resposta de Walter Salles(que eu acho que Beto Brant vai gostar de saber qual foi).
– ‘Central do Brasil’ e ‘Diários de Motocicleta’ dividem uma peculiaridade – os roteiros dos dois filmes foram recusados por todas as companhias norte-americanas para onde foram levados em busca de financiamento. ‘Central’ acabou salvo por uma co-produção com a França e ‘Diários’ pela rede de TV cultural Channel Four, da Inglaterra. O primeiro foi visto por quase 6 milhões de espectadores no mundo, enquanto ‘Diários’ fez 12 milhões. Ninguém previu esses números – a começar por nós mesmos. O cinema está na confluência entre arte e indústria e é importante que os filmes possam de alguma forma se justificar economicamente. Mas se uma cinematografia avança e se oxigena, é muitas vezes graças a pequenos filmes que não atingem o grande público. Um exemplo recente é o excelente ‘Cão sem Dono’, de Beto Brant (acrescento, eu, Merten, o nome do co-diretor Renato Ciasca). Pode não ter feito um número enorme de espectadores, mas não importa. É um filme que vai alimentar a cinematografia brasileira, e que foi feito em regime de baixo orçamento. O problema, no meu entender, se situa na área dos filmes que se querem comerciais, são caros, usam incentivos fiscais e não atingem o público. Não cumprem uma função nem outra. É aí que mora o gargalo hoje, e não nos filmes de autor.

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