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Cultura » Walsh do meu coração (2)

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Luiz Carlos Merten

10 Maio 2009 | 19h26

PARIS – Dei este título no post anterior e no mantenho aqui, acrescido do número 2, mas se o assunto é Raoul Walsh ele bem poderias se chamasr ‘Cinema em movimento’, ou cinema do movimento. Joel McCrea chama-se McQueen em ‘Colorado Territory’. Acreditam que, com o western de Raoul Walsh no Action Christine, está em cartaz aqui na França ‘Bullitt’, de Peter Yates, com Steve McQueen, numa programação especial sobre ‘polar’ (thriller) na Filmoteca do Quartier Latin? É outra coisa ver esses filmes em cópias impecáveis no cinema. McQueen (McCrea) é um fugitivo da cadeia que salva um velho e sua filha de um ataque de bandidos. Ele se junta ao antigo bando, mas os ex-companheiros querem se desembaraçar dele. McQueen busca refúgio na casa do velho, mas é traído pela filha do homem que salvou (Dorothy Malone). Acuado, o herói se une à mestiça Virginia Mayo e juntos se refugiam na montanha. O original de ‘Colorado Terrirory’ chamava-se ‘High Sierra’ e no Brasil ficou sendo ‘Seu Último Refúgio’, agora me lembro. ‘Colorado Territory’ é mesmo ‘Golpe de Misericórdia’. Que p… western, meu Deus! O clima é de tragédia e o tema é o passado que irrompe no presente dos personagens, cobrando seu preço. O passado que condena é um tema recorrente na obra de Walsh. Reaparece em ‘Band of Angels’. Yvonne De Carlo é criada como aristocrata, mas perde o pai e descobre que é mestiça e pior – está endividada. A lei em New Orleans estabelece que ela seja colocada à venda como escrava para amortizar as dívidas. A ‘escrava’ é comprada por Clark Gable, num personagem que tem tudo a ver com o Rhett Butler de ‘…E o Vento Levou’. Ele se apaixona pela escrava e faz dela uma mulher livre. Como John Ford, Walsh era atraído pelo cavalheirismo do Sul, que preferia, no fundo, ao arrivismo do Norte. E, mais do que Ford, ele era um feminista avant la lettre, com suas mulheres de faca na boca, que não se reduzem a um papel secundário na sociedade controlada pelos homens. ‘Band of Angels’ não é um western. É mais um melodrama de época, e suntuoso. Walsh fez ‘trocentos’ filmes com Clark Gable e Yvonne De Carlo. Ele também filmou muito com Virginia Mayo. Ambas eram estrelas ‘B’ em Hollywood. Virginia reinava na Warner, onde também fez vários filmes com Gordon Douglas, incluindo ‘Nenhuma Mulher Vale Tanto’ (The Iron Mistress). Ela valia. Adoro a história sobre o sultão de Bahrein que, em visita ao estúdio, pediu para conhecê-la. Diante de Virginia, loira e linda, ele fez a saudação muçulmana e disse que ela era a prova viva da misericórdia de Alá pelos homens. Não sei se a história é verdadeira ou pura lenda. É daquelas que vale imprimir (‘print the legend’), de qualquer maneira.