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Cultura » Walsh do meu coração (1)

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Luiz Carlos Merten

10 Maio 2009 | 19h19

PARIS – Quem me acompanha sabe que ‘Rocco e Seus Irmãos’ é o filme da minha vida, mas não foi a obra-prima de Luchino Visconti que me impulsionou a virar jornalista de cinema. O primeiro filme sobre o qual experimentei o irresistível desejo de escrever foi um western. Essa primeira crítica, por certo ainda incipiente, foi publicada no mural da Faculdade de Arquitetura da UFRGS e, desde então, nunca mais parei, lá se vão (quantos?) 45 anos, por aí. O filme era ‘Um Clarim ao Longe’ (A Distant Trumpet), de Raoul Walsh, com Troy Donahue no papel do lieutenant Matt Hazard, personagem que não deixava de ser uma variação do intrépido General Custer, que Errol Flynn criara em outro clássico de Walsh, de 1941, e que até hoje me encanta, mesmo consciente de que aquele Custer – de ‘They Died with Their Boots On’ – pouco ou nada tinha a ver com o da realidade. Por que estou falando sobre Walsh? É um dos meus mestres favoritos e só aqui na França (onde mais?) eu tive a felicidade de fazer hoje um programa duplo dedicado ao grande diretor, assistindo a dois de seus filmes em cópias zero bala. A ordem de assistir aos filmes não foi a cronológica de realização. Assisti primeiro a ‘L’Escrave Libre’ (A Escrava Livre), que é como se chama na França ‘Meu Pecado Foi Nascer’ (Band of Angels), com Clark Gable e Yvonne De Carlo, da segunda metade dos anos 50. Vi depois ‘Colorado Territory’, em pré-estréia, porque o filme com Joel McCrea e Virginia Mayo só reestréia dia 20. “Colorado Territory’ é considerado um dos clássicos de Walsh e é sempre citado quando se trata de estabelecer as semelhanças entre o western e o filme de gângsteres, até porque esse western é o remake de ‘High Sierra’, que o próprio Walsh fizera anos antes, um no começo dos 40, o outro encerrando a década. Qual deles se chamava ‘Golpe de Misericórdia’ no Brasil? O western. Na França, é ‘La Fille du Désert’ (A Garota do Deserto) e é curioso que o clássico ‘The Searchers’, de John Ford, ‘Rastros de Ódio’ aí no Brasil, aqui é ‘La Prisonnière du Désert’, A Prisioneira do Deserto. Grande Walsh. Fez filmes de todos os gêneros, em todos os estúdios, dirigindo os maiores astros. Jean Tulard, cujo dicionário não tenho aqui à mão, diz que a carreira dele oferece uma súmula da história de Hollywood, e é verdade. Walsh dizia que os filmes não se chamavam ‘motion pictures’ por acaso. Como imagens em movimento, tinham de se mexer e o cinema dele é cheio de ação, embora essa ação não seja um fim em si mesma, mas uma forma de expressar uma visão do homem no mundo. Sobre Walsh, não dá para falar pouco. Continuo no próximo post.

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