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Luiz Carlos Merten

13 Agosto 2007 | 09h48

Pouca gente deve se lembrar, acho que só Walmor Chagas e eu, do impacto que teve em Gramado, há mais de 30 anos, a exibição de Um Homem Célebre, que Miguel Farias Jr. adaptou de Machado de Assis. O filme tinha cenas de sexo muito fortes, um nu frontal do próprio Walmor e eu me lembro do debate que foi realizado numa sala acanhada do Hotel Serra Azul. Havia pouca gente e eu me lembro que uma senhora, trêmula, perguntou por que o cinema brasileiro só mostrava sexo – hoje diria que só mostra violência -, tendo tanta coisa bonita do País para mostrar. Enfurecí-me e soltei os cachorros, dizendo que, em vez de se preocupar com as cenas de sexo, ela devia se preocupar com as violência que o cinema brasileiro não estava apresentando por causa da censura. Quando Gramado começou, uma invenção de Paulo Fontoura Gastal e outros caras, eu era jornalista de cinema na Caldas Jr. Nunca fiz parte da patota e até criticava o festival, porque achava que devia ser mais combativo em relação à ditadura. Gramado é um pólo turístico e eu não me surpreendi quando a cidade estendeu o tapete vermelho para os globais. Acho legal o esfoprço dos curadores José Carlos Avellar e Sérgio Sanz, mas são só dois anos (com este) numa história de 35. Vim aos primeiros festivais de Gramado em anos alternados – 1973, 75, 77. Depois, mudei de área, fui para São Paulo e passaram-se muitos anos, acho que uns 20, sem que eu pisasse em Gramado. Recomecei a vir regularmente nos últimos anos. Lembro a história de Um (ou o O?) Homem Célebre porque Walmor Chagas está aqui, de novo, no elenco de Valsa para Bruno Stein. Não posso dizer que é um filme de que tenha gostado. Seus defeitos, para mim, superam (e muito) as qualidades, mas algumas cenas são bonitas e Walmor imprime, como se diz, pathos ao personagem. Ele é Bruno e, ao mesmo tempo, Bruno é o que Walmor agrega ao personagem, com sua persona. Confesso que Bruno Stein tem coisas que a mim provocaram irritação – o som, exageradamente alto, sempre que aquela caminhonete entra em cena; as personagens femininas. Depois da mulher do coronel de Concerto Campestre, Arací Esteves – a maravilhosa Anahy de Sérgio Silva -, não merecia a mulher de Bruno, nem Ingra Liberato merecia a nora que tem tesão pelo sogro (e Walmor trambém a deseja). Ingra esforça-se, tem seus momentos (os diálogos com a filha, uma personagem mais bem construída), mas eu confesso que não agüentava mais ver aquela mulher que não faz nada, que vive lendo pelos cantos, espiando seu objeto de desejo (o sogro). Todo mundo trabalha, no sentido de ter um emprego, um ofício, no filme, menos ela. Não sou burro, percebo que isso faz parte da psicologia da personagem, da sua viagem obsessiva, mas não está bem resolvido. O que mais gostei foi a paisagem. Caçapava do Sul. Zanin fez uma observação curiosa no restaurante, quando fomos tomar nossa sopa de capeleti. Disse que, dentro da exuberância, é uma paisagem árida, inóspita. É verdade, mas essas vidas secas – pois são vidas secas, não no sentido de Nelson Pereira dos Santos, não no de Graciliano Ramos, talvez no de Karin Aïnouz em Suely -, não me convenceram. Vamos ao debate. A equipe está toda aqui.