As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Wajda! Ou: A Morte do Sr. Política

Luiz Carlos Merten

10 Outubro 2016 | 10h16

RIO – Este não é um post sobre o festival. Estou em choque. Ontem, produzi meu material do dia para a edição de hoje do Caderno 2 e emendei com minhas atividades aqui. Fiz a mediação do debate de Redemoinho, vi filmes, no plural. Fiquei de ligar para a redação,. mas não consegui orelhões funcionando na Cinerlândia. É nesses momentos que percebo que até nisso ‘eles’ vão vencer e vou terminar tendo de aderir ao celular. Porque, agora, estou em choque. Tomei café da manhã como Ana Paula Souza e o marido, mais o Tomás, filho de ambos, de 1 ano, menino lindo. Fui dar uma olhada no jornal e… Morreu Andrzej Wajda! Como? Sabia que estava debilitado, mas ainda na semana passada enviei as perguntas que ele responderia por e-mail, como homenageado da Mostra com o Troféu Leon Cakoff. Na entrevista que fizemos com ela, Luiz Zanin Oricchio, Ubiratan Brasil e eu, Renata de Almeida ressaltou o caráter político da 40.ª Mostra, que começa dia 20. Um pouco pela situação brasileira, por tudo que aconteceu e ainda está acontecendo no País, mas também, porque se o evento tem um cartaz desenhado por Marco Bellocchio e faz retrospectivas de Bellocchio e Wajda, o foco só pode ser a política. Wajda! Ao apresentá-lo para uma audiência planetária, quando a Academia de Hollywood lhe outorgou um Oscar de carreira, Jane Fonda, ex-Jane Hanói, curvou-se perante Wajda, chamando-o de ‘Sr. Política’, Mr. Politics. Wajda queria ser pintor, mas ao invés da Academia de Pintura terminou entrando para a de Cinema. Integrante de uma geração que sofreu a guerra e a guinada da Polônia para o comunismo, iniciou-se com filmes de testemunho. Kanal, a fuga de partisans pelos túneis de esgoto de Varsóvia, Cinzas e Diamantes, sobre esse militante que deve matar um líder político na transição do pós-guerra, Sansão, sobre a odisseia de um jovem judeu na Polônia ocupada. Terá sido a vocação de pintor que lhe deu essa noção particular do plano? Os túneis de Kanal, vaga lembrança de O Terceiro Homem, de Carol Reed, com Orson Welles. A herança expressionista logo virou barroco. A cruz invertida, com o Cristo de cabeça para baixo na igreja em ruínas de Cinzas e Diamantes, representação de um mundo em crise de valores. Os nazistas que constroem uma cerca para confinar os judeus em Sansão e, da justaposição de duas peças de madeira, forma-se uma cruz, para que Wajda coloque o tema da responsabilidade dos católicos poloneses, e da própria Igreja, no Holocausto. Na tentativa de entender seu país, Wajda viajou ao passado mais distante para flagrar o nascimento do capitalismo na Polônia em Terra Prometida e As Senhoritas de Wilko. Sob o comunismo, e mesmo com risco pessoal, denunciou o autoritarismo, herança stalinista, em Sem Anestesia, O Maestro e O Homem de Mármore. Com O Homem de Ferro, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes, em 1981, foi o cronista do Solidariedade. A esperança de um novo tempo. Mas ele teve de continuar crítico da Polônia democratizada. A recapitalização, conversão do país em economia de mercado, afundou desigualdades, criou novas e abissais denúncias de corrupção. Em 2007, há quase dez anos, com Katyn, Wajda logrou mais um testemunho pessoal, sobre os legalistas do Exército polonês massacrados por forças soviéticas, crime atribuído aos nazistas para tentar minimizar a reação, já com vistas ao pós-guerra, quando a URSS integrou a Polônia à chamada ‘Cortina de Ferro’. Ele foi altivo e foi crítico. Não deve ter tido tempo de responder a minhas perguntas. Algumas delas referenciam-se aos míticos atores de seus filmes – Zbigniew Cybulski, conhecido como o James Dean polonês, o rebelde. Krystina Janda e Daniel Olbrychski. Cybulski interpretou o episódio polonês, dirigido por Wajda e, claro, o mais político de O Amor aos 20 Anos. Há um momento num zoológico, com a intervenção ameaçadora de um urso – metáfora do comunismo. Estava imaginando publicar uma linda matéria com as respostas de Wajda. Cá estou fazendo, no blog, seu obituário. Ele morreu aos 90 anos. Por essa, não esperava. Mas teremos de voltar a ele, durante a Mostra, com uma seleção, retrospectiva parcial, de seus grandes filmes.