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Cultura » Wajda, 50 anos depois

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Luiz Carlos Merten

21 Maio 2007 | 16h36

CANNES – Corri tanto que naoh tive tempo de postar nada, ateh agora. Voces jah viram que estou sem meu laptop, aproveitando alguns minutos antes da sessaoh de Hondo, de John Farrow, que vou ver na versaoh restaurada, em 3-D, na comemoracaoh do centenario de John Wayne, no sabado, dia 26. Voltamos aas nossas velhas convencoes que irritam tanta gente. O a duplo representa crase, o duplo e eh acento circunflexo, o h final eh acento agudo ou circunflexo e, aas vezes, ateh o til. Sei que isso irrita muita gente, mas facam (leiam como se fosse cedilha) um esforco. Tive hoje experiencias que gostaria de compartilhar logo com voces. Por exemplo – jah poderia ter assistido ao filme do Tarantino, Death Proof, mas preferi deixar para amanhah, indo ver a homenagem do festival aos 50 anos de Kanal, em presenca do proprio Andrzej Wajda. Minha vida tem esses momentos privilegiados, reconheco. Cannes construiu uma sala especial para as homenagens dos 60 anos. Sentei-me no corredor e, quando Thierry Fremaux anunciou a entrada do diretor, levantei-me, instintivamente, para aplaudir de peh (que ele merece). Estava num ponto em que Wajda, ao fazer a curva, deu de cara comigo, que me levantava. Taoh instintivo como o meu gesto, foi o dele de me cumprimentar, apertando a maoh. Na saida, acho que ele viu que eu estava emocionado e, de novo, me cumprimentou. Em Porto Alegre, nos anos 60, quando vi pela primeira vez Kanal e Cinzas e Diamantes, nunca imaginei que um dia cruzaria com ele. Wajda lembrou que, em 1957, quandfo Kanal ganhou o premio do juri aqui em Cannes, nem ele nem o cinema polones existiam para o mundo. Ele chegou desconhecido aa Croisette e saiu consagrado do velho Palais. Wajda disse que naoh saoh muitos os diretores que, 50 anos depois, voltam ao lugar de sua consagracaoh para rever, com outro publico, um filme que foi taoh importante em sua carreira. Kanal naoh eh o meu Wajda favorito. Gosto muito de Cinzas e Diamantes, que tem aquele plano genial da igreja em ruinas e do Cristo invertido na cruz, representando a inversaoh de valores que soh tem feito aumentar nos ultimos 47 anos. O expressionismo de Kanal continua impressionante, aquela humanidade no esgoto continua muito forte como ideia politica, mas eu confesso que prefiro outros filmes de Wajda – Cinzas e Diamantes, que jah citei, Sansaoh e Sem Anestesia. Citei o Cristo invertido de Cinzas e Diamantes e cito agora um plano de Sansaoh que mostra como a inteligencia de Wajda eh visual. Ele mostra duas madeiras sendo unidas em formato de cruz, com prego e martelo, e recua a camera para filmar os judeus sendo confinados pelo nazismo. O plano, genial, expoeh a responsabilidade da Igreja Catolica no Holocausto. Acho que Wajda, aas vezes, teem a maoh pesada, mas o respeito muito. Lembro de Jane Fonda, que o apresentou, quando ele recebeu seu Oscar especial da Academia de Hollywood. Ela fez um discurso que terminava com a afirmacaoh de que ele era o Sr. Politica, no cinema. Jane curvou-se perante Wajda. Teria sido melodramatico (ou brega?) fazer a mesma coisa, mas bem que eu gostaria de ter feito.