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Luiz Carlos Merten

24 Abril 2008 | 16h56

Voulez vous danser avec moi? Como resistir ao convite, se quem o fazia, em 1959, era a jovem Brigitte Bardot? “Quer Dançar Comigo?’, de Michel Boisrond, é um dos três filmes que integram a caixa da Coleção Brigitte Bardot, da Universal. Os outros dois são ‘Garota Levada’, de 1956, e ‘O Repouso do Guerreiro’, de Roger Vadim, de 1962. Sou capaz de jurar que ‘Garota Levada’ é o mesmo ‘Cette Sacrée Gamine’, também dirigido por Boisrond, e que foi lançado no Brasil como ‘Mlle. Pigalle’, bem no começo do mito BB. A jovem Brigitte! Esta mulher sozinha fez uma revolução comportamental nos anos 50, com seu jeito de menina num corpo de mulher, com sua pré-disposição para o amor e o sexo. As mulheres ainda tiveram de esperar mais um pouco para se liberar, mas Brigitte ajudou, no pré-feminismo, com certeza. Não creio que os três filmes da tal caixa sejam grandes, mas quero rever especialmente ‘Você Quer Dançar Comigo?’, no qual ela se inscreve numa academia de dança para tentar provar a inocência do marido infiel, acusado de haver matado a dona. Pode ser signo de debilidade mental, mas em 1958/59, eu falsificava carteirinha de estudante – ai, meu estelionato! – para ver as comédias de boulevard do Boisrond, que eram invariavelmente ‘impróprias’ até 14 anos, quando não proibidas para menores de 18. Entre ‘Cette Sacrée Gamine’ e ‘Quer Dançar Comigo?’, ele já havia colocado o jovem Delon para dançar com Pascale Petit em outra comédia sugestivamente chamada de ‘Faibles Femmes’ (e que no Brasil ficou ‘O Ponto Fraco das Mulheres’). Brigitte, Pascale, Mylène Démongeot… Quem, aos 14 anos, não lascou uma homenagem a essas três, lá nos 50? O mais ambicioso dos três filmes da caixa é, paradoxalmente, o menos interessante (o pior?). Vadim adaptou o romance de Christiane Rochefort, uma ex-attachée de presse do Festival de Cannes que parecia dar continuidade à literatura sobre o desconforto da juventude iniciada por Françoise Sagan nos anos 50, no que é considerado a pré-nouvelle vague. Na verdade, Christianejá devia estar nos 40 e prosseguia mesmo é com as indagações de Simone de Beauvoir e Louise Vilmorin sobre a mulher francesa moderna. Brigitte faz a garota que salva sujeito da morte e ele, interpretado por Robert Hossein – com quem Vadim fez também ‘O Vício e a Virtude’, baseado em Sade –, é um sociopata que vai tentar controlar a vida dela, agredindo-a física e verbalmente. Mesmo assim, BB cria uma dependência e não quer dar no cara o pé na b… que ele merece. Até onde me lembro, o filme era bem medíocre e não nem tinha os ingredientes de sofisticação (o jazz de ‘Aconteceu em Veneza’) e escândalo (o nazismo em ‘Le Vice et la Vertu’) que fizeram Vadim famoso. Os críticos dizem que ele antecipou a nouvelle vague em ‘…E Deus Criou a Mulher’. Será mesmo? Vadim deve ter sido, isso sim, um grande comedor, para ter seduzido três das mulheres mais desejadas do mundo – BB, Catherine Deneuve e Jane Fonda. No livro que ele escreveu sobre elas, Vadim diz que Brigitte era uma criança caprichosa e mimada, que Catherine era uma tirana doméstica e Jane era obcecada pela perfeição. Na verdde, ele parece não ter convivido bem com o sucesso delas e o eclipsar-se, progressivo, de sua carreira. Mas as três vestiram-se de preto e foram ao enterro dele, em 1990. Para prantear o ex ou se certificar de que ele tinha morrido?