Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » ‘Vou dizer pro teu pai…’

Cultura

Luiz Carlos Merten

08 Setembro 2011 | 10h12

Há 22 anos trabalho no ‘Estado, frequentando a redação – Deus me livre de trabalhar em casa, sonho de tanta gente -, e há todo este tempo, nesta mesma época do ano, assisto a um espetáculo.  Nas alças de acesso da Marginal para a Ponte do Limão existem pés de amoras (amoreiras?) que dão seus frutos em setembro. E é muito comum ver os passantes catando as frutas. Quantas vezes não pensei em descer do táxi para me juntar a eles (e elas)? Na minha infância, em Porto, podia até ser anti-higiênico, mas o barato era comer a amora diretamente da árvore. Olho para aquele espetáculo que se renova todos os anos e me vêm os versinhos da minha infância. A gente dizia para as garotas – ‘Gosta de amora? Vou dizer pro teu pai que tu namora’ Bobo assim, mas era divertido, um som que vem lá do passado, como uma madeleine a me trazer o tempo perdido (e sempre reencontrado). Não sei por que, ou melhor, sei, mas com a história das amoras me vem sempre um dos mais belos livros que já li, o ‘Platero e eu’, de Juan Ramón Jiménez, relançado no Brasil numa edição bilíngue, de luxo, bem diferente daquela brochura na antiga Coleção Catavento, da Globo. Jimenez, que ganhou o Nobel de Literatura em 1956, fazia poesia em prosa. Sua arte é feita de pequenos toques e observações, às vezes tão tênues que parecem que vão se dissolver. E ele recria as falas, os costumes, as rimas da sua infância, que, embora gtenha se desenfrolado numa aldeia da Andaluzia, são muito parecidas com essa das amoras. Eu amo Platero e, no meu imaginário, ele se soma a outro burrito genial, o Balthazar de ‘A Grande Testemunha’, que Robert Bresson coloca no centro da sua via-crúcis, na obra-prima de 1966, dez anos depois do Nobel de Jiménez. Bresson era muito ligado a Georges Bernanos, dificilmente deve ter tido alguma influência de Jiménez, embora talvez conhecesse sua obra, não sei. A associação é minha e, se a faço, é porque é possível. É curioso como, à medida que a gente envelhece, o passado volta com muita força. Não sei se já contei aqui, mas uma vez, era garoto, não me lembro se no 1º ou 2º ano da escola primária. Morava na Rua Mata Bacelar e tinha de subir a Mariland e dobrar à esquerda para chegar à Marquês do Pombal, onde ficava, quase na esquina da Cel. Bordini, a entrada para a escola, o G.E. Gal. Daltro Filho. Nunca fui de dormir à tarde, nem quando criança, mas naquele dia dormi e acordei com uma sensação esquisita. Não havia ninguém na casa e eu, pensando que era manhã e havia perdido minha hora, saí correndo para a escola. Quando subia a Mariland – não chegava a ser muito íngreme -, o sol, batendo de frente, me veio direto na cara. É incrível, mas volta e meia aquela imagem, aquela sensação me vem e aquilo, no minha lembrança, virou uma metáfora do meu desejo (eterno) de aprender, de descobrir coisas. Nesta semana, fiz e continuo fazendo entrevistas muito legais. Charly Braun e Guilhermina Guinle, que eu amo – mulher mais bonita, meu Deus, o cinema ainda não lhe fez justiça -, Gustavo Pizzi, Wagner Moura. Tenho passado, ao vivo ou por telefone, muitas horas conversando com pessoas de quem gosto, ou que admiro. Publiquei esta semana a entrevista com Steven Bauer, relembrando a filmagem de ‘Scarface’ – e pegando carona no lançamento em Blu-Ray do melhor filme de Brian de Palma. Não me esqueço da dedicatória que me fez Carlos Reichenbach, no seu livro da Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial. Tivemos nossas diferenças, em relação à obra dele, inclusive, mas nunca deixamos de conversar, e o Carlão destaca justamente que o que nos une é o amor pelo maior De Palma. Acho lindo aquilo! Comecei com as amoras e estou viajando, viajando…