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Luiz Carlos Merten

22 Novembro 2010 | 13h01

Depois de dois dias em Natal, sexta e sábado, fizemos um city tour ontem de manhã, de táxi. Um calor do cão, ‘da porra’, como dizem os nordestinos. Não havia ar condicionado que desse conta. Almoçamos – no ‘Camarões’, de novo, mas o salmão não é tão bom quanto a especialidade de casa – e eu me joguei na cama, zapeando na TV. Peguei o bonde de ‘Billy Elliot’ andando. Aliás, peguei o filme de Stephen Daldry já no finalzinho. Billy conversa com o pai, manifesta seu medo, pergunta se poderá voltar para casa, se não se adaptar à academia de dança. O pai diz que não, brincando, porque seu quarto já foi alugado. Billy derruba o pai, monta nele. O que se segue é de uma precisão, e de uma emoção, que sou capaz de me lembrar do timing de cada cena. Billy vai se despedir da sua primeira professora de dança, recebe o abraço da avó, que sabe que nunca mais o verá. O pai e o irmão correm com a mala para não perder o ônibus. Billy despede-se do (e beija o) amigo. Dentro do ônibus, ele fica num patamar mais alto que o irmão. Logo em seguida, o pai pega o elevador para baixo, na mina. Um efeito de aceleração na imagem mostra o pai e o irmão chegando a Londres para a primeira apresentação de Billy, já bailarino. O reencontro com o amigo que se veste como mulher, os bastidores, a tomada de trás, quando Billy, adulto e com aquele corpo musculoso, avança para o palco. O voo do pássaro. Acho Stephen Daldry um diretor muito interessante. Gosto de ‘As Horas’, de ‘O Leitor’, apesar da maquiagem de envelhecimento de Kate Winslet. ‘O Leitor’ tem cenas deslumbrantes (incluindo as cenas de Kate escutando o garoto ler para ela e o desfecho com Lena Olin), mas nada supera, na obra do autor, a perfeição daqueles 10 ou 15 minutos finais de ‘Billy Elliot’. Daldry era diretor de teatro. Sonhava com o cinema. Surgiu a oportunidade de fazer o filme sobre o garoto que queria ser bailarino. Era pegar ou largar. Ele pegou. Li certa vez uma entrevista em que ele conta que foi durante a filmagem que se apaixonou pelos personagens – o pai, a instrutora de dança, o irmão e Billy, naturalmente. No seu guia de filmes, Leonard Maltin define ‘Billy Elliot’ como a feel-good movie in the very best sense. Jamie Bell, segundo Maltin, é ‘glorious’ no papel. Assino embaixo. Lembro-me do inesperado prazer que experimentei ao ver o filme em Cannes, há dez anos. Não sabia nada, tinha um horário livre e entrei na sala, no automático. Foi uma revelação. Não me lembro de ter revisto ‘Billy Elliot’ inteiro, mas vejo sempre partes, quando estou zapeando e entram aquelas imagens. Sei cenas e diálogos de cor. É um filme que me faz sentir bem, mas essa catarse passa sempre pelo choro. O abraço de Billy no pai, os dois caídos no chão. O velho turrão que já fez tudo pelo filho e agora vai, puxado pelo outro filho, para o teatro. É o contraponto ao medo de Billy – talvez o medo do velho do que vai encontrar. Daldry não filma mais do ângulo dele. Agora é só a ‘nossa’ relação com Billy. Deus, como aquilo é bonito!

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