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Luiz Carlos Merten

03 Junho 2009 | 09h51

Fui ontem ao Rio, mais exatamente a Pedra de Garatiba, para visitar o set de ‘Como Esquecer’, o novo longa de Malu de Martino, produção de Elisa Tolomelli, que promete fazer barulho. A dupla de ‘Mulheres do Brasil’ encara o desafio de fazer um filme sobre relações, encarando o homossexualismo como um fato, e filmando o cotidiano não só de duplas de homossexuais, mas de gays que sofrem a dor da perda como qualquer outra pessoa. É um enfoque raro, e não apenas no cinema brasileiro, mas aqui os grandes filmes que tratam do assunto – e de transexualismo, diversidade sexual –, tipo ‘A Rainda Diaba’, ‘Pixote’ e ‘Madame Satã’, usam o tema para falar de violência, de poder, para criar representações metafóricas sobre a exclusão social e política. O filme promete – e Ana Paula Arósio e Murilo Rosa, que fazem os amigos gays, se jogaram nos papéis. Ela está desglamourizada, sofre sua perda amorosa feito uma condenada. “Quer glamour?”, perguntou. ‘Vai procurar na revista!” Mas a verdade é que, por conta dessa viagem, fiquei ontem o dia todo sem dar notícia. Do aeroporto do Rio até a locação, foram quase duas horas de carro, mais duas para voltar e os textos que tinha de fechar ontem para a edição de amanhã do ‘Caderno 2’… Não tive tempo de postar nada sobre a tragédia do vôo 447, da Air France, que caiu sobre o Atlântico. Viajo muito, vocês sabem, e minha companhia preferida é justamente a Air France, que ainda tem um padrão de atendimento – nesse mundo global ‘funcional’ – baseado em regras que criam certo vínculo entre a empresa e o cliente. Que outra companhia ainda oferece champanhe para seus passageiros, independentemente de classe? Aliás, voei ontem para o Rio pela Ocean Air, pela primeira vez, e me surpreendi, porque do balcão ao serviço de bordo, a OA dá de dez na Gol e até onde sei a Gol é aquilo para baratear custos, só que a OA é ainda mais barata (com civilidade). Deixa pra lá que um dia a Gol ainda vai me proibir de entrar em seus aviões. Volto ao vôo 447. É comum, nessa rota do Atlântico, a turbulência, mas eu confesso que, na hora em que o avião começava a balançar, sempre pensava comigo – ‘Não vai acontecer nada, estou num avião da Air France’. Bem, ocorreu, essa tragédia. Os especialistas vivem nos dizendo que o transporte aéreo é o mais seguro e as estatísticas provam que morre muito mais gente nas estradas. Só em São Paulo, sei lá, é raro o dia em que a gente não vê dois ou três motoqueiros caídos. O problema é que, quando cai um avião, morrem 200 de uma só vez e isso sempre produz um abalo. O ‘Estado’ de hoje vai adiante na sua manchete em relação aos demais jornais brasileiros. A concorrência, então… ‘Tragédia se desenhou em 4 minutos’ – imagino que tenham sido os 4 minutos mais longos do mundo, a partior do momento em que o comandante comunicou, se é que o fez, que o piloto automático se desconectara e começou uma sucessão de graves panes. A morte anunciada… Nas minhas maiores fantasias, imagino sempre esse momento em que uma pessoa olha para o companheiro de poltrona, seja ligado a ele/ela, ou não, e pensa ‘Vamos morrer!’ Até ontem, ainda havia esperança, como não? Eu, pelo menos, passei a segunda e parte da terça pensando no assunto. Lembram-se daquele último filme da série ‘Aeroporto’, em que o jato cai no mar e a luta é para resgatar os passageiros que estão lá no fundo, com o ar se esgotando e o volume d’água ameaçando partir a aeronave. O cinema, a ficção, teria se antecipado à realidade? Mas eu pensei mesmo foi em Antoine de Saint-Exupéry. O dublê de escritor e aviador foi desacreditado e ganhou um verniz cafona porque ‘O Pequeno Príncipe’ virou o livro preferido das misses. Como é que diz a raposa para o PP, sobre a rosa? “Tu és responsável por aquilo que cativas…” Cheguei a representar o Pequeno Príncipe, em francês, numa montagem amadora no Colégio Júlio de Castilhos, em Porto, quando tinha, sei lá, dez-onze anos. Mas eu gostava era dos livros de aviação do Saint Exupéry, ‘Vôo Noturno’, ‘Terra dos Homens’, quando ele participou da aventura da Aerospatiale, o correio aéreo entre a Europa e a América do Sul, o Chile. Saint Exupéry pertencia a uma geração de grandes intelectuais franceses que também eram aventureiros. André Malraux, ele… Em ‘Terra dos Homens’, conta a história de Guillaumet, cujo avião caiu nos Andes, no inverno. Durante sete dias, os amigos ficaram sem notícia de Guillaumet. Sua morte era dada como certa e todos já o haviam pranteado. Mas Guillaumet sobrevivera à queda e, durante sete dias, caminhou na neve, faminto e com frio, tendo a morte como companheira. Mais tarde, ele conseguiu dizer aos amigos – ‘O que eu fiz, palavra que nenhum bicho, só um homem era capaz de fazer…’ Não conheço narrativa mais bela sobre o esforço humano de superação. Me emociono, os olhos ficam úmidos, só de pensar. John Huston, grande diretor, construiu toda uma obra em torno aos temas da validade do esfrorço e da inevitabilidade do fracasso humano. Saint Exupéry transformou a inevitabilidade em probabilidade. Lá no fundo, na segunda-feira, tão logo ouvi, no táxi, pelo rádio, vindo para o jornal, o noticiário sobre o desaparecimento do Airbus, sonhava com o exemplo de Guillaumet. Eles vão aparecer. Não tinha nenhum amigo, nenhum conhecido no vôo 447. O impacto dessa tragédia aérea não foi menor, para mim, por isso.