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Luiz Carlos Merten

10 Novembro 2006 | 09h33

Já falei tanto do Volver, mas lá vou eu de novo, porque o filme, afinal, estréia hoje e eu acho que pode ser um prazer muito grande (para mim foi) ingressar neste universo de mulheres que o Almodóvar sabe filmar tão bem. É até curioso, mas Almodóvar, como Scorsese em Os Infiltrados, também se inspira no mundo do cinema. Ele admite que seu filme nasceu da admiração por Almas em Suplício (Mildred Pierce), melodrama ‘noir’ do Michael Curtiz que deu a Joan Crawford o Oscar de melhor atriz. Mas, na origem do roteiro, Almodóvar superpôs à lembrança do filme antigo um fato de que teve conhecimento lendo o jornal. Estava na América Central (acho que ele disse na Costa Rica, mas não tenho certeza) quando leu sobre esse sujeito que matou a sogra e escondeu o cadáver. Volver vai assim se desenvolvendo por camadas – o cinema, a realidade. O título tem múltiplos significados. Almodóvar ‘volve’ ao convívio com uma atriz que já foi fundamental em seu universo, Carmem Maura. As personagens, e a Penelope Cruz, em especial, ‘volvem’ às origens, ao lugar em que nasceram, mas quem ‘volve’ mesmo é o próprio Almodóvar. Ele disse, em Cannes, que, de todos os filmes que fez, nenhum teve, de forma tão forte, esse caráter de retorno às origens, à infância, na Mancha. Ri muito com o Alberto Serra, diretor de Honor de Cavalleria, filme de que gosto muito (e que passou na Mostra). Adaptando um fragmento do Don Quixote, ele foge ao que seria o óbvio – o combate do herói de Cervantes com os moinhos de vento. Eu disse pro Serra – Volver, do Almodóvar, tem mais moinhos de vento do que o teu filme e eu acho que a idéia do filme do Almodóvar é um pouco o combate interior contra nossas quimeras, nossas fantasias. Ele disse que nunca tinha pensado por este lado, mas achou que fazia sentido. Até por isso gostei do Volver, com sua espiral de leituras. Cada vez que penso no filme sinto que ele me abre a porta para alguma coisa. Para uma compreensão do mundo, do cinema e de mim mesmo. Em Cannes, escrevi que era bom, mas não era Tudo Sobre Minha Mãe, no sentido de que não era tão bom quanto o filme anterior. Quando revi no Rio, me dei conta de que Volver ‘é ‘Tudo Sobre Minha Mãe, no sentido de que é a descoberta da mãe e toda a história passada que vem com este ‘fantasma’ (assim, entre aspas) que leva Penelope a se assumir, ela própria, como mãe e mulher. Vejam, e comentem.