Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Volta da Grécia

Cultura

Luiz Carlos Merten

24 Novembro 2006 | 12h01

Acabo de chegar a São Paulo, depois de uma semana no Festival de Tessalônica, na Grécia, que homenageou o cinema brasileiro com uma retrospectiva de 18 filmes, desde clássicos do Cinema Novo até obras recentes da retomada. A participação brasileira em Tessalônica 2006 foi organizada pelo Grupo Novo de Cinema, representado pela crítica e jornalista Suzana Schild. O festival termina domingo, dia 26, com a entrega do Alexandre de Ouro para o melhor filme. O Céu de Suely, rebatizado como Suely in the Sky, está na mostra competitiva. Há uma brasileira no júri oficial, Kátia Lund, e outro brasileiro, José Carlos Avellar, no júri da crítica (Fipresci), mas se O Céu de Suely for premiado não vai ser graças aos esfoprços de nenhum dos dois e sim, pelos próprios méritos do filme do Karim Aïnouz, que é ótimo. Vou ter que falar muito sobre o festival e o encontro que ele me proporcionou com pessoas a quem admiro, por mais diferenças que possa ter com algumas. Foi um convívio de poucos dias, mas muito intenso, permeado de discussões sobre cinema que é, afinal, o que nos divide a todos. Os diretores Karim Aïnouz, Marcelo Gomes e Walter Salles, as produtoras Sara Silveira, Lucy e Paulo Barreto, os críticos José Carlos Avellar e a Suzana foram grandes parceiros nesta aventura na Grécia. Walter Salles me confessou na volta (nos reencontramos no aeroporto de Atenas) que encontrou em Tessalônica três auytores a quem admira muito – Wim Wenders, Theo Angelopoulos (que entregou o Alexandre de Ouro especial a Wenders, por sua carreira) e o turco Nuri Bilge Ceylan. Este é o cara – Ceylan começou em 1995, no mesmo ano de Jia Zhang-ke. Ambos foram premiados em Berlim. Jia foi o vencedor do recente Festival de Veneza com Still Life. Ceylan não ganhou nada em Cannes por Climates, mas o filme virou a sensação do ano em diversos festivais internacionais. Ceylan, guarde o nome. Walter Salles e Karim Aïnouz amam o cara. Walter me contou que jantou com ele e o Ceylan falou maravilhas de um filme brasileiro, do qual havia gostado muito. Qual?, Walter quis saber. Cinema, Aspirinas e Urubus. É incrivel, mas há outra Grécia que não é só aquela das casas brancas e do mar azul. Há um agreste grego, como há na Turquia e isso é o que aproxima filmes como Cinema, Aspirinas e Urubus e Suely daquele público. Walter outra coisa muito interessante. Ceylan quis saber dele quantos espectadores o filme do Marcelo Gomes fez no Brasil. Passou de 130 mil, pode chegar a 150 mil, em função do Oscar a cuja indicação concorre. Ceylan ficou impressionado. Disse que um filme daquele, com aquela sofisticação, aquela exigência, faria dez mil na Turquia, que é o que fazem os filmes dele (20 mil quando há grande repercissão internacional). Tudo bem que o Brasil é um país continental, muito maior que a Turquia, mas Ceylan acha que o público brasileiro deve ser muito cinéfilo ou então gostar muito de filmes nacionais. Pode-se discutir se isso é verdade, mas o carinho do Ceylan, como dos gregos, por Cinema, Aspirinas e Urubus e o próprio sucesso do filme no Brasil mostram como um filme pequeno pode superar seus limites e adquirir outra estatura.