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Você tem visto muita filosofia ultimamente?

Luiz Carlos Merten

28 Janeiro 2007 | 19h13

Antes, havia a psicanálise. Com as chaves de Freud, ficava muito mais fácil explorar camadas de complexidade nos filmes. O caso de Hitchcock sempre foi exemplar. Desde os anos 40, quando incorporou a psicanálise ao seu universo estético e moral, Hitchcock dava a impressão de que Freud e ele haviam nascido um para o outro. A psicanálise continua sendo uma ferramenta valiosa, claro – não digo que necessdária -, mas agora temos também a filosofia. Cada vez mais temos doutores em filosofia usando o cinema para desenvolver seus conteúdos e conceitos. E não pense que eles pegam os filmes de autores, digamos, intelectuais, daqueles bem difíceis. Já tivemos Matrix e a filosofia, O Senhor dos Anéis e a filosofia e temos agora Carta Aberta de Woody Allen a Platão, do espanhol Juan Antonio Rivera, considerado uma dupla sumidade – em filosofia e cinema. Recomendo a leitura. Volta e meia a gente ouve diretores – brasileiros e de outras nacionalidades – tentando explicar seus fracassos porque o público não entendeu os filmes deles. No cinema, quem me conhece sabe que defendo a co-autoria. Nós, o público, somos co-autores dos filmes. Os diretores propõem e a gente, ao reformular o filme no inconsciente, pode até construir outra obra, que não foi aquela que ele concebeu. Mas, enfim, acho curiosa essa história do entendeu, não entendeu. Pegue o caso de O Ano Passado em Marienbad, de Alain Resnais, que é um filme-chave das revoluções de linguagem nos anos 60. Entender o que? Resnais usa tempo e espaço para contar uma história de amor pouco convencional. Existe este homem que, como um psicanalista, tenta retirar do inconsciente de uma mulher a informação que lhe interessa – ele quer convencê-la de que se encontraram no ano passado em Marienbad. O que o espectador tem de entender, neste caso, é que o autor não quis contar uma história de forma tradicional, com começo, meio e fim. Mas até, se um dia você prestar atenção, vai ver que a história é tradicional e que Resnais apenas complica sua evolução dramática porque embaralha tempo e espaço. O que isso tem a ver com o livro de Rivera, editado no Brasil pela Planeta? Ele não analisa Resnais, mas, em compensação, faz uma leitura originalíssima de Lili. Você não sabe que filme é esse? Lili, o musical de Charles Walters, vencedor do Oscar de canção (Hi Lili Hi Lo), acho que de 1953 (ou 54). Leslie Caron faz uma órfã que é adotada por um circo e se apaixona pelo ventríloquo (Mel Ferrer). Lili é o tipo do filme que os críticos dizem que é bonitinho, prazeroso, mas nunca ninguém lhe deu maior atenção. Vem agora o sr. Rivera nos dizer que Lili é o mais político dos filmes, o que melhor traduz a filosofia platônica. Você achava que eram os diretores do cinema político dos anos 60 e 70? Não. Toda a República está em Lili, cantada e dançada, naquele circo e seus personagens. A criatura, a cidade ideal, os fundamentos da política, da igualdade e da responsabilidade, tudo o que Platão pensou há milhares de anos foi cristalizado naquele musical de um autor que nem tem a reputação de um Minnelli, um Donen ou um Cukor. Charles Walters já morreu. Não dá para perguntar para ele se havia lido A República ou se era mesmo esse seu objetivo. Não importa. Está tudo lá, para quem, como Rivera, consegue ‘entender’. Rivera construiu o filme dele e isso é que importa. Façam bom uso dessa historinha. Tentem rever Lili na próxima vez que passar na TV (aberta ou paga). E vejam também os outros musicais de Walters, como A Inconquistável Molly, com Debbie Reynolds. Molly Brown, a propósito, existiu. Ficou milionária ao descobrir petróleo em seu miserável rancho no Texas e sobreviveu ao naufrágio do Titanic. Hummm. Petróleo, Titanic. Aonde isso leva? Dinheiro, capitalismo, tecnologia. Não sei não, mas em vez de correr atrás de Lili talvez seja melhor fazê-lo atrás de A Inconquistável Molly, para tentar descobrir se Platão também está ali dentro, antes que Juan Antonio Rivera venha nos dizer.

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