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Voa de novo um balão vermelho

Luiz Carlos Merten

18 Maio 2007 | 07h28

CANNES – Há muitos anos, não sei se dez, participei de um projeto da professora, pesquisadora e crítica literária gaúcha Regina Silbermann, que queria mapear a produção cultural para a criança. Regina me pediu que escrevesse o capítulo dedicado ao cinema. Ele teria de ser reescrito, porque ocorreram mudanças significativas. Dedico, no meu texto, atenção especial a Albert Lamorisse que, nos anos 50, fez um filme que não é exatamente para crianças, mas é um marco na forma como o cinema filma a infância, O Balão Vermelho. Imaginem a minha (dupla) surpresa ao chegar aqui em Cannes e descobrir que um grande diretor a quem admiro muito, Hou Hsiao Hsien, iria abrir a seção Un Certain Regard com um filme inspirado no de Lamorisse, Le Voyage du Ballon Rouge. Acho que já fui para a sessão gostando, mas mestre Hou conseguiu me surpreender. O filme é de uma delicadeza e de uma poesia que me deixaram chapado. Mas não me perguntem sobre o que é. Eu diria que é sobre nada, o que é a outra forma de dizer que é sobre tudo. O menino de Lamorisse, interpretado pelo filho dele, Pascal, perseguia seu balão vermelho nas ruas de Paris. A perda do balão representava seu amadurecimento precoce. No de Hou Hsiao Hsien, o balão é que persegue o garoto. A família é disfuncional e a mãe, Juliette Binoche (loira), é uma atriz, na verdade a dubladora da vilã num espetáculo de marionetes. A história é tênue. Não acontece muita coisa, mas o balão está sempre ali, sobrevoando os tetos de Paris (outra referência, esta a René Clair). Representa a vida. Me emocionei, eu e todo o público da Sala Claude Debussy que, lotada, deu ao diretor o maior aplauso, até agora, deste 60º festival. A revista Positif, rival de Cahiers du Cinéma, arranjou uma maneira original de contar a história dos 60 anos de Cannes. Ano a ano, a revista analisa o vencedor da Palma de Ouro e o que teria sido o grande esquecido. Não sei, não, mas para o centenário, ou para os 70 anos, mais próximos, Positif já tem um candidato para os esquecidos. Le Voyage du Ballon Rouge (A Viagem do Balão Vermelho) não pode, afinal de contas, aspirar à Palma, mas seria um belo vencedor. Espero que o filme de Hou Hsiao Hsien ajude a resgatar o de Albert Lamorisse. A Patrícia, mulher do Adhemar Oliveira, que dirige o Projeto Escola (Espaço Unibanco e Arteplex), tem a maior loucura por O Balão Vermelho. Já tentou comprá-lo para relançamento no Brasil. Chocou-se com a intransigência da família de Lamorisse, que queria manter seu filme secreto. Agora que foi liberado para a homenagem de Hou Hsiao Hsien – mas nenhuma cena do filme antigo é utilizada -, quem sabe o Balão não volta? Tomara…

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