Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » ‘Vivre sa Vie’

Cultura

Luiz Carlos Merten

23 Novembro 2010 | 09h34

Godard completa 80 anos em dezembro, senão me engano, exatamente na sexta-feira da próxima semana, dia 3. Disse há dias que queria escrever sobre ‘Viver a Vida’, que foi lançado em DVD, com clássicos (cults?) de Robert Bresson (‘Um Condenado à Morte Escapou’) e Claude Chabrol (‘Nas Garras do Vício’/Le Beau Serge). Já meio que atropelei ontem, num post sobre o Paulista, que só pirateia filmes de arte, em Natal. Pedi ao Dib (Carneiro) que contasse ontem na redação a história e ele foi mais preciso que eu. Quando Dib, a título de provocação, lhe perguntou se não tinha comédias românticas, o Paulista usou o majestático – ‘Nós’ (Deus e ele) temos um controle de qualidade.” Ou seja – comédias românticas, não. Genial! Mas deixei escapar – admiro Jean-Luc Godard mais que o amo. Sua obra me interessa mais pelo conjunto, pelo significado revolucionário, do que por momentos isolados. Não creio que quisesse levar algum Godard para a ilha deserta. ‘Acossado’? Prefiro Jesse Lujack (‘A Força do Amor’) a Michel Poiccard, mesmo reconhecendo que Valerie Kaprisky não seja páreo para a mítica Jean Seberg. Aquele look de bandido barato, quando a câmera sobe pelas botas de Richard Gere até chegar ao sorriso ‘oferecido’, é demais. Pura mitomania. Os godardmaníacos de carteirinha que me desculpem, mas, como diria Billy Wilder, ninguém é perfeito, muito menos eu. Gosto de fragmentos de ‘Tempo de Guerra’, ‘A Chinesa’ e ‘Week-End à Francesa’. Amar, de paixão, só ‘O Desprezo’ – por causa de Fritz Lang, mais do que de Brigitte –, e o episódio ‘A Preguiça’, de ‘Os Sete Pecados Capitais’, com Eddie Constantine. Mas ‘Viver a Vida’ é impressionante. Quase um documentário, ou uma ficção nas bordas do documentário, o filme trata de prostituição, um tema recorrente na obra de Godard, mas o trata no sentido marxista de ‘alienação’, física e emocional. Naná, a personagem de Anna Karina, aliena o corpo e Godard mostra, em 12 quadros, como, ao fazê-lo, ela perde a alma que acredita que poderá preservar. É a parábola da ave, que tem o lado de fora e o de dentro e tirando os dois não resta nada. Godard não crê em lágrimas. Naná chora no cinema, assistindo a ‘O Martírio de Joana d’Arc’, de Carl Theodor Dreyer (as lágrimas de Falconetti). Dessa maneira, ela se aliena da própria condição e vira joguete dos homens. A divisão em quadros, a montagem sincopada – são vários os recursos de distanciamento de que se vale o autor. Karina é magnífica e Godard cria para ela talvez os mais intensos closes de sua carreira. Tenho a impressão que, de todos os filmes do cineasta, este é o mais bem fotografado (em preto e branco, por Raoul Coutard), além de ter um comentário musical (um fragmento que pontua determinadas cenas) muito belo, de Michel Legrand.