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Luiz Carlos Merten

27 Fevereiro 2010 | 05h32

PARIS – Ia ver o novo espetáculo de Ariane Mnouchkine, na Charcuterie, mas perdi o horário conversando com Sérgio Leeman (e também me assustava a duração da peça, porque Ariane é como Zé Celso Martinez Correia: não abre seu palco para espetáculos com duração inferior a 4 horas). Fui rever ‘Tetro’, admirável Coppola, e emendei, após um jantar rápido, com ‘A Single Man’, de Tom Ford. (Vocês vão ler isso no sábado, mas ainda estou falando de sexta-feira.) No ano passado, em Cannes, participei de uma mesa redonda, cortesia da Paramount (ou era Universal?), com Colin Forth. O filme era ‘Os Fantasmas de Scrooge’, de Robert Zemeckis, e felizmente havia, no grupo, gente mais informada do que eu. Um sujeito começou a fazer perguntas sobre ‘A Single Man’ – e eu que nem sabia da existência de Tom Ford, que dirá do filme! Meio surpreso, descobri que, após a mesa redonda, teria direito a uma individual com Colin e aí fui eu, que não curto muito as animações de Zemeckis – o seu conceito de motion capture -, que aproveitei para falar sobre ‘A Single Man’. Colin Firth estava tão orgulhoso do seu trabalho. Talvez já antecipasse a indicação para o Oscar. Na época, ele me falou da filiação de Tom Ford à vertente do melodrama. Só entendi hoje o que ele tentava me dizer. Ford, como Todd Haynes, é cria de Lacan, no sentido de que o psicanalista era louco por Douglas Sirk. ‘A Single Man’ é o ‘Longe do Paraíso’ de Tom Ford, mas sua referência ‘sirkiana’ não é a mesma (a de Haynes era ‘Tudo o Que o Céu Permite’). Ford baseou-se num original de Christopher Isherwood, o autor de ‘I Am a Camera’, que deu origem a ‘Cabaret’, para contar a história desse professor que, nos EUA de 1962, em plena crise dos mísseis, em Cuba, amarga a morte do companheiro. O filme, entre outras coisas, é sobre como era ser homossexual numa época de grande repressão. Colin, na abertura, está acordando para mais um dia, na verdade, seu último dia, porque ele pretende se matar. O ato de se vestir ganha uma dimensão metafórica. Colin veste uma couraça de ‘normalidade’ para não chamar a atenção, para se tornar ‘invisível’ aos olhos da maioria. Na aula, ele fala do medo, relacionado à crise dos mísseis, mas também ao medo da maioria face a uma minoria que a ameaça (e ao medo dessa minoria). Vocês já devem ter matado a charada do filme que foi o farol de Tom Ford, ‘Imitação da Vida’. ‘A Single Man’ é da mesma vertente que ‘Longe do Paraíso’ e ‘Pecados Inocentes’ (Savage Grace), de Tom Kalin, ambos com Julianne Moore. Ela também está no filme de Tom Ford e será preciso acrescentar que é, mais uma vez, perfeita? Todos, vale acrescentar, apresentam refinadas reconstituições de época, com minimalistas recriações dos anos 1950 e 60. ‘A Single Man’ deve estar estreando no Brasil, acho que na próxima sexta, porque logo virá o Oscar. Vai ser um filme bom de falar, embora não seja para todos os gostos. É até bom que assim seja. Vive la différence!