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Luiz Carlos Merten

01 Setembro 2009 | 13h47

Não estranhem. havia aproveitado o DVD de ‘Viva Maria!’ para falar duplamente de Malle – além de homenageado do Festival Internacional de Dopcumentários, que recomeçou ontem, o diretor é um daqueles cuja obra está quase tyoda disponível em DVD no País. Escrevi o texto que vocês vão ler para o ‘Caderno 2’, mas terminei por substituí-lo na página de DVD do jornal. Enfim, um texto com parágrafos no blog!

No livro com a entrevista que concedeu a Philip French, Louis Malle conta que viveu, talvez, a experiência mais estressante de sua carreira durante a filmagem de ‘Viva Maria!’, em meados dos anos 60. Considerando-se que Malle, cineasta do escândalo, trabalhou quase sempre no limite, abordando temas polêmicos, a afirmação do cineasta pode parecer estranha, mas o próprio Malle explicava. Ele estava acostumado a realizar seus filmes na mais completa solidão, de preferência isolado com artistas e técnicos e, de repente, o fato de o filme reunir as duas maiores estrelas da França – a intelectual Jeanne Moreau e a popular Brigitte Bardot – criou um interesse tão grande pela produção que o set, diariamente, era invadido por dezenas e até centenas de jornalistas.
Filmar no México, onde se passa a história, já era motivo de estranhamento. Outra paisagem, outra língua. Agora imagine todos aqueles jormalistas – da França, dos EUA, do Japão, da América Latina. Os maiores jornais do mundo enviaram ao México seu pessoal em busca de material exclusivo. Por isso mesmo, Malle contava que a experiência de filmar ‘Viva Maria!’ não foi nem de longe alegre ou divertida como o filme pode sugerir. É bom poder falar de Malle, e de um Malle diferente para os próprios padrões do artista. É melhor ainda porque, justamente agora, o Festival Internacional de Documentários abre uma janela para que se possa avaliar ‘a parte submersa’ da obra do autor. É assim que Amir Labaki, criador e diretor do evento, define a obra documentária de Malle. Na sua série ‘A Índia Fantasma’, ele vai fundo na investigação de um país – uma cultura – que o perturba. E antecipa tendências – o documentário inquiridor na primeira pessoa.
Precursor da nouvelle vague, Malle terminou fazendo sua carreira à margem do movimento de renovação do cinema francês por volta de 1960, com o qual, aliás, não se identificava. Malle vinha de outro meio, de uma família milionária. Virou um corpo estranho entre os jovens da nova onda. De todos, foi o que mais rapidamente adquiriu a reputação de provocador e, logo, de escandaloso. Seus temas contribuíam para isso, claro, porque o estilo era até meio clássico, mas Malle filmava o sexo (oral), a linguagem obscena de Raymond Queneau, o suicídio, o incesto, o colaboracionismo durante a ocupação da França pelos nazistas, a prostituição infantil. Boa parte de sua obra – quase toda – encontra-se disponível em DVD – ‘Amantes’, ‘zqazie no Metrô’, ’30 Anos Esta Noite’, ‘O Sopro no Coração’, ‘Lacombe Lucien’, ‘Pretty Baby’, ‘Adeus, Meninos’. Os distribuidores ainda nos devem o que talvez seja o maior Malle – ‘O Ladrão Aventureiro’, de 1967, adaptado do romance de Georges Darien, com Jean-Paul Belmondo.
A imprensa criou o mito da rivalidade entre Bardot e Moreau em ‘Viva Maria!’, mas era infundado. O filme é sobre amizade. Malle e o roteirista Jean-Claude Carrière buscaram combinar fantasias de infância com o pastiche de clássicos de aventuras. O western era uma referência permanente – Malle iniciou o projeto pensando em reproduzir, por meio de duas mulheres, a relação de Burt Lancaster e Gary Cooper em ‘Vera Cruz’, de Robert Aldrich. Moreau faz a filha de um terrorista irlandês, que acaba de perder o pai. Ela se liga a Bardot, como uma artista itinerante. Ambas se chamam Maria e se envolvem com um jovem revolucionário. Malle queria Alain Delon no papel, mas teve de se contentar com George Hamilton. O bom de (re)ver ‘Viva Maria!’ hoje está na descoberta que o filme proporciona. Malle se antecipou aos italianos na invenção do spaghetti western. A própria história de ‘Viva Maria!’ sugere, alguns anos antes, a de ‘Giu la Testa!’, Quando Explode a Vingança, de Sergio Leone. Na verdade, os dois foram crias de Aldrich, mas esta é uma observação que só interessa a cinéfilos de carteirinha.