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Cultura » Viva Alan Alda!

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Luiz Carlos Merten

19 Março 2007 | 13h39

Meu amigo Bira (Ubiratan brasil) já havia me comentado que saiu, pela Fox, a caixa com a primeira temporada completa de MASH. Estou com ela aqui do meu lado. São 24 episódios distribuídos em três discos e eu dei uma olhada em dois deles – Henry, Volte para casa, no segundo disco; e Algumas vezes se Ouve Uma Bala, no terceiro. MASH virou um dos programas mais populares da TV no começo dos anos 70. Foi ao ar durante mais de dez anos, entre 1972 e 83. O ponto de partida foi o filme de Robert Altman, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes, em 1970, e o Oscar de roteiro adaptado. Quem assiste ao filme, ou à série, hoje em dia, não faz idéia do impacto que tiveram, há 30 e tantos anos. Em 1970, a Guerra do Vietnã produzira uma espécie de polarização na sociedade americana. Realizavam-se protestos a favor e contra. Foi a primeira guerra televisionada, o que significa que os combates irrompiam nas casas das pessoas. Você podia estar almoçando ou jantando e via, no noticiário, aquela gente com as vísceras de fora ou a garota correndo, com o corpo em chamas, atingida pelo napalm. Morria gente pelo ladrão e foi neste quadro que Altman e o roteirista Ring Lardner Jr. se basearam no livro de Richard Hooker para contar a história de uma unidade móvel hospitalar do Exército americano, durante a Guerra da Coréia. Elliott Gould e Donald Sutherland faziam a dupla de cirurgiões que, entre uma operação e outra, jogavam golfe e corriam atrás das enfermeiras – em especial atrás de uma, interpretada por Sally Kellerman e sugestivamente chamada de Lábios Ardentes. Foi um choque. Nunca se havia visto nada tão irreverente e demolidor. A própria idéia da morte era desmistificada com virulência. Tão grande foi a influência de MASH, o filme, que surgiu a série, dois anos depois. Gould e Sutherland haviam virado astros, ligados à contestação e/ou à contracultura. Eram anos de profundas mudanças sociais – e o cinema participava do processo. Na versão TV, Alan Alda faz o Capitão Benjamin Franklin Pierce, codinome Hawkeye, cujo desprezo pelos regulamentos do Exército só é comparável à sua habilidade com o bisturi. Wayne Rogers faz o parceiro de Hawkeye, o Capitão John F.X. McIntire, e Hot Lips, Lábios Ardentes, ganha as curvas (e a boca sensual) de Loretta Swit. Como disse, vi só alguns episódios e, portanto, não posso avalizar que tenha sido nesta primeira temporada que MASH apresentou episódios que marcaram a história da TV americana e mundial e viraram referências. Um deles era um falso documentário em preto-e-branco, no qual um repórter de TV irrompia no Mobile Army Surgical Hospital para entrevistar a equipe; outro narrava sua história na primeira pessoa, com a câmera assumindo o ângulo de um soldado ferido. Alan Alda ficou tão envolvido com a série que escreveu e dirigiu vários dos episódios (de 30 minutos cada). Ele fez história na TV. Foi o único a ganhar nove Emmys pelo mesmo programa e em diferentes funções – como ator, roteirista e diretor. Isso ocorreu mais para o fim do show, quando Gene Reynolds e Larry Gelbart abandonaram a produção artística da série e Alda, para mantê-la no ar, assumiu praticamente todas as funções. Alan Alda acaba de ganhar o Oscar de coadjuvante por Diamante de Sangue. Há menos de um mês, gostaria que tivesse vencido o Djimon Hounsou de Diamante de Sangue, mas há pouco, vendo esses episódios de MASH, me dei conta de que a vitória dele foi mais que justa. Adoro o avô de Miss Sunshine, que impulsiona a netinha àquele número irreverente de strip-tease, e é forçoso reconhecer que Alda, no começo dos 70, já vinha despejando seu humor crítico sobre a sociedade dos EUA. MASH, a série, é um item precioso para colecionadores. Você vai rir do horror da guerra. Tudo começou com Altman, mas a turma da TV manteve o nível de deboche e provocação.