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Vitória Cine Vídeo

Luiz Carlos Merten

17 Novembro 2007 | 10h20

Olá, fiquei tão ocupado nos meus dois dias no Vitória Cine Video que nem pude postar (é verdade também que não encontrava computadores vagos nas horas disponíveis e, para variar, não havia levado laptop). Mas foi legal. Curti a paisagem – o Hotel Ilha do Boi fica em cima do morro, com bela vista para a praia, o que, para mim, que só curto mar à distância, é ideal – e também li muito. Li o livro da Coleção Aplauso em que Luiz Carlos Lacerda, o Bigode, conta sua vida a Alfredo Sternheim, e o volume faz justiça à fama de mais apimentado da coleção – a história de Bigode é um pouco a história secreta de uma geração, ou do cinema brasileiro, e seria mais, se seus ‘excessos’ não tivessem sido podados para se ajustar a certas normas – e li também ‘A Massai Branca’, que virou filme, que não havia visto (um das raríssimas vezes em que isso ocorreu neste ano). O Vitória Cine Vídeo é um festival de curtas que, aos poucos, vai incorporando os longas à sua programação. Adoro o trabalho das meninas que o organizam porque, de todos os festivais brasileiros que conheço, é o mais comprometido com o social. O Instituto Marlin Azul faz um trabalho de base que dura o ano todo e as oficinas de Vitória são muito legais. Havia ido para o lançamento do livro ‘Cinco Mais Cinco’, que foi mais ou menos um fiasco. Na hora estavam sendo lançados mais quatro ou cinco livros, incluindo o do Bigode e a coleção Cinema no Mundo, da Alessandra Melleiro. As poucas pessoas interessadas em comprar foram, compreensivelmente, nos volumes mais baratos, mas o ambiente era legal, com muita conversa, muita troca de informação. Ontem à tarde, finalmente, fiz o que realmente me deu prazer em Vitória – tive um encontro com o público, para falar de crítica, cinema… Em vez de dar uma palestra, fui sabatinado. Foi ótimo. A maioria do público era integrada pelos alunos da oficina de crítica e eles queriam saber desde questões conceituais até o dia-a-dia da redação de um grande jornal como o Estado, que ainda é um baluarte do pensamento analítico e crítico. É incrível, mas um monte de gente quer saber como Luiz Zanin Oricchio e eu conseguimos continuar com um espaço tão grande para nossas críticas, e com direito a debater (muitas vezes a dois) filmes que são miúras do ponto de vista do mercado e os outros jornais tratam à base de notinhas, quando não ignoram (como as semanais). É claro que isso tem a ver com a figura do diretor de redação, do editor (Dib Carneiro Neto, mas, justiça seja feita, essa já era uma batalha de Evaldo Mocarzel). O jornalismo especializado não deixa de fazer parte da indústria cultural e a gente, muito provavelmente, teria problemas, se não tivesse resposta, quero dizer, apoio, do público. Gosto desses encontros, por que me renovam. Essa é uma pergunta que todos me fazem – como evitar que a crítica, o pensamento, o texto se tornem automáticos, depois de tanto tempo? Gabriel Vilela, o grande diretor de teatro, disse uma coisa bonita para um amigo – o Merten ama o cinema como eu amo o teatro. Ouvi uma vez de uma pessoa, jornalista, que cobre teatro, uma frase que me chocou – estou louco para me aposentar para não ter de entrar nunca mais num teatro. Deus me livre! Eu não me aposento e, mesmo se me aposentaasse, teria o blog para continuar falando de cinema. Curto muitas outras coisas, mas sem cinema não vivo. Antes de ser jornalista de cinema, crítico, dêem o nome que quiserem, sou cinéfilo e, mais até do que cinéfilo, sou cinemeiro. Tem gente que gosta de filmes, de grandes filmes. Eu gosto de cinema. Este entusiasmo, que o jovem tem, me renova bastante. Se não tivesse o desejo de ser cremado – mas espero que demore bastante – ia imitar Visconti, que disse certa vez que queria que inscrevessem em seu túmulo – ‘Amava o melodrama e Verdi”. Para mim, seria – “Amava o cinema, Visconti e os westerns”.