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Viscontices…

Luiz Carlos Merten

13 Março 2018 | 08h41

Tem sido emocionante chegar ao Cinesesc e ver toda aquela movimentação. Muita gente da minha geração, muita gente mais jovem, e muita gente bem jovem. Luchino Visconti, que tinha de gritar para o mundo, nos anos 1970, pouco antes de morrer – em 1976 -, que não era um reacionário, atravessa o tempo reconhecido como o grande cineasta que foi. O mundo mudou tanto, o cinema, idem. Novas autorias, novos suportes, novas tecnologias. É muito curioso rever hoje um filme como O Estrangeiro. Visconti teve tantos problemas – já os referi no blog e hoje tem um texto no Estado online – que ele próprio se sentia ‘straniero’ no set. Mas estava preso a contrato e teceu uma mise-en-scène dura, buscando nos movimentos de câmera, acoplados à lente zoom, não sei se exatamente equivalentes visuais (e sonoros, na trilha de Piero Piccioni) dos disparos de Mersault, mas em todo caso ‘shots’ que desestabilizam o espectador e provocam mal-estar. Em mim, provocam, e é tão contrasditório, tão bonito ver a recriação da Argélia (da Argel) de Albert Camus. Queria ter escrito um post sobre Rocco e Seus Irmãos, que queria ver ontem, e vi, mesmo que em circunstâncias um tanto dramáticas. Havia pedido ao distribuidor uma entrevista com Philippe Garrell, de O Amante por Um Dia. Ele marcou exatamente para as 10 da noite de Paris, 6 da tarde em São Paulo. O filme havia começado às 4 h. Duas horas depois terminara exatamente a briga entre os irmãos, após o estupro de Nádia por Simone. Logo em seguida viria um dos momentos mais belos do filme – o rompimento no alto do Duomo, mas tive de deixar a sala, fiz a entrevista, e foi ótima, Ficamos quase uma hora, uns 50 minutos, Garrel e eu, e quando consegui voltar à sala Simone estava apunhalando Nádia, paralelamente à luta de que Rocco sai vencedor. ‘Cobre-te.’ Simone diz a Nádia que foge dele e derruba o casaco. O treinador diz a mesma coisa a Rocco, que está apanhando. Cobre-te! A montagem paralela é um recurso que grandes autores utilizam, porque sabem utilizar. Na sequência, (re)vi a cena da comemoração em casa, quando Rocco lembra o pedreiro do paese e o sacrifício do tijolo, para que a casa cresça forte. E o discurso de Ciro, e o pequeno Luca naquela estrada, que talvez o leve de volta para Potenza, belo pasese mio. Cada vez redescubro por que Rocco é o filme da minha vida. Mesmo que o mundo não seja hoje o que sonhava/sonhávamos nos (19)60, no célebre Maio, há ali um desenho social, o desejo por mundo mais justo, e uma compreensão do humano que me tocam profundamente. A zoom em O Estrangeiro, o melodrama, base da estética de Visconti, em Rocco. Alain Delon volta para casa, ao abandonar o quartel. Soa duas vezes a campainha e o espectador, ligado na ‘ação’, provavelmente nem nota. A placa identificando a família de moradores, diz ‘Pafundi’. Eram, originalmente, no roteiro e no próprio filme, os Pafundi, não os Parondi, mas Visconti e seu produtor, Goffredo Lombardi, da Titanus, tiveram muitos problemas legais – com a censura, a Justiça, a Igreja. A burocracia levou a produção à loucura, criando casos. E quando o filme já estava pronto, um tal Pafundi, magistrado, não lermbro se procurador-geral da República, pediu a interdição, que Visconti conseguiui evitar pelo simples fato de dublar os atores, e portanto só precisou (re)dublar certas partes, trocando o nome da família. Refilmar a cena da volta para casa talvez fosse mais difícil e o nome ficou na porta. Talvez pudesse ter sido corrigido digitalmente no restauro, mas ficou como… Uma lembrança? Um documento de época? Nunca ninguém me falou sobre o detalhe. A dedução é minha, a la Agatha Christie, mas creio ser verdadeira. Só sei que (re)ver Rocco me aquece a alma. Aquele diálogo de Rocco com Nádia no café, quando ele diz que ela lhe dá pena, e Nádia chora. Una lacrima furtiva. Parafraseando Nick/Humphrey Bogart, por mais cruel que me seja a vida, sempre terei Rocco.