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Visconti, lá vou eu!

Luiz Carlos Merten

29 Março 2018 | 09h26

Começa hoje a respecagem da retrospectiva de Luchino Visconti no Cinesesc. E começa com Rocco e Seus Irmãos, o filme da minha vida, que espero rever, às 9 da noite. Havia ido à última sessão de Rocco durante a retrospectiva. O filme começava às 6 da tarde. Tinha entrevista agendada com Philippe Garrel e ele marcou às 7. Pensei comigo que conversaríamos 10/15 minutos, até porque seriam dez da noite em Paris. Philippe desembestou a falar, ficamos uma hora ou mais de conversa, eu usando o telefone do próprio cinema. Voltei à sala na cena paralela, Nadia sendo assassinada no parque e Rocco lutando para se tornar campeão. ‘Covrete, amore, covrete.’ E, depois, a comemoração, quando Rocco conta a história do pedreiro que, no paese, sempre sacrifica um tijolo. Perché, por que?, pergunta Lucca, o caçula. ‘Para que a casa cresça forte.” Hoje à noite, espero voltar ao Cinesesc e reviver, agora integralmente, as emoções de Rocco. E já tenho programa para todas as noites, até domingo. Ludwig, amanhã, sexta, 19 h. Violência e Paixão, Gruppo di Famiglia in Un Interno, no sábado, também às 7 da noite, e no domingo Senso, Sedução da Carne, às 9. Eu, às vezes, me pergunto o que está ocorrendo comigo? Estou num momento difícil, só eu sei quanto, o que talvez me vulnerabilize. Tenho gostado demais de rever os meus clássicos. Visconti, Roberto Rossellini, Stromboli. E gostei de Pirapkura, de Árvores Vermelhas, de Severina. Estarei perdendo meu juízo crítico, me deixando levar demais pela emoção? E aí penso nos filmes. Nos dois indiozinhos a encarnar o espírito da floresta, no velho Alfred Willer, com seu daltonismo – as árvores vermelhas – e em Javier Brotas, sozinho naquela livraria, siderado por aquela mulher que o ultrapassa e nunca será dele, porque ninguém é de ninguém (parece título de J.M. Simmel) e concluo que não. São os filmes, sim. No encontro que mediei sobre Antes do Fim, Jean-Claude Bernardet queixou-se da pasmaceira que identifica no cinema brasileiro atual, e muitos outros críticos estenderiam ao panorama mundial. Não estou querendo em absoluto polemizar com Bernardet, até, porque o respeito e, no fundo, os filmes que ele identifica como fugindo disso também são meus favoritos – Boi Neon, Cinema Novo, Arábia. Esse último é o meu farol na produção brasileira contemporânea, e forma uma tetralogia com Boi Neon, Corpo Elétrico e Pela Janela. Filmes/ficções sobre o trabalho, e trabalhadores. Sobre operários, sobre gêneros, os novos papeis sociais – Boi Neon. Estou numa fase em que minhas maiores alegrias têm vindo do cinema. Vocês não sabem o que é viver com dor. François Truffaut, em Jules e Jim, acho que citando Oscar Wilde – “Deus, cuide da minha dor física, que da moral me ocupo eu.” É natural que, nesse momento, esteja apaixonado pelos filmes. Parafraseando Nick, Bogart, quando diz a Ilsa, Bergman, que sempre terão Paris – em Casablanca -, eu, cá comigo, penso que sempre terei Luchino. Vai ser um longo dia. Daqui a pouco estou indo ao CCBB para ver uma cabine do É Tudo Verdade – um filme sobre A Batalha de Argel- e à noite terei o Rocco. À tarde, vou à redação do Estado e espero conseguir encaixar o filme sobre Edir Macerdo, Nada a Perder, se ainda restarem ingressos desse imenso sucesso anunciado.