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Visconti e o ar do tempo

Luiz Carlos Merten

10 Março 2018 | 13h29

Lembro-me de Jefferson Barros, grande crítico gaúcho, e do triunvirato que reinava no seu panteão de autores, Jean Luc Godard, Joseph Losey e Luchino Visconti. Estou falando dos anos 1960. A maneira revolucionária de fazer cinema revolucionário, a maneira revolucionária de fazer cinema clássico, e a clássica de fazer cinema revolucionário. Com o tempo, a bem da verdade, Visconti foi se afastando do que seria o modelo desse cinema baseado no realismo crítico, e se tornando cada vez mais depositário de uma cultura clássica e decadente. Em Violência e Paixão, seu penúltimo longa, de 1974 – já estava paralítico -, uma nova geração já o hostilizava abertamente, como ocorreu comigo este ano, em Tiradentes, e Visconti, projetando-se em seu alter ego, Burt Lancaster, que já havia sido o príncipe Salinas de O Leopardo, lamuriava-se – ‘Não sou um reacionário!’ Confesso que fiquei eufórico quando o Cinesesc anunciou sua grande retrospectiva de Visconti. Tenho um carinho especial por ele, e não me canso de dizer que Rocco e Seus Irmãos é o filme de minha vida, mas me perguntava se a nova geração poderia ter essa mesma fascinação pelo chamado ‘Conde Vermelho’. Por suas preocupações estéticas e ontológicas, Visconti parece tão distante do espírito desses tempos que vivemos. Encanta-me saber que a retrospectiva – todo Visconti! – está lotando todo dia e ontem foi preciso fazer, à meia-noite, uma sessão suplementar de Morte em Veneza para atender à demanda. Sempre houve esse culto a Morte em Veneza, principalmente por parte de homossexuais. A idealização da beleza, a sublimação do sexo e a crueldade da velhice. Dirk Bogarde, como Aschenbach, mira-se no espelho e ri diante do resultado de sua transformação. Maquiado, faz do próprio rosto uma máscara de juventude, mas a pintura escorre. Belo como é, visualmente, musicalmente, talvez seja o filme de Visconti de que menos gosto. Gostaria de ter revisto para ver se mudava de opinião. Sempre preferi a representação da homossexualidade de autores como Jean Genet e, no cinema, a de heteros como John Huston e Robert Aldrich, que foram mais duros, até violentos, se bem que também há violência naquela autocomiseração de Luchino. que era gay, diante da irremediável decadência que Dirk Bogarde expressa com sua classe de ator superior. Infelizmente, vivi uma semana punk, e perdi. Mas hoje vou (re)ver O Estrangeiro. Vi muitas vezes todos os filmes de Visconti, mas esse foi só uma vez, e no lançamento, há bem uns 50 anos. É de 1967, deve ter estreado no Brasil no ano seguinte. O próprio cineasta nutria sentimentos contraditórios em relação a seu filme. Estava preso por contrato ao produtor Dino de Laurentiis, para quem fizera o episódio de As Bruxas, estrelado pela mulher dele, Silvana Mangano, que viraria a intérprete por excelência da fase final de Visconti. Mas deu tudo errado. Visconti queria fazer alterações e atualizar o texto de Albert Camus, o que a viúva do escritor não permitiu, de jeito nenhum. Queria Alain Delon no papel de Mersault, mas ele estava ligado a outros filmes e Visconti teve de aceitar Marcello Mastroianni, que era grande, mas o próprio Luchino admitia não ter o temperamento do personagem. Não foi um filme muito bem recebido, mas Visconti, com todos os problemas que enfrentou, não o considerava um de seus filmes menores. Estou muito curioso para (re)ver.