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Cultura » Visconti à luz do tempo

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Luiz Carlos Merten

04 Julho 2008 | 15h48

Em Paris, fui à livraria Reflets, Rue M. le Prince, para adquirir novos volumes da coleção ‘Cahiers du Cinéma’/’Le Monde’, incluindo o dedicado a Kenji Mizoguchi, que havia esquecido há um mês, quando por lá passei, após o Festival de Cannes. Depois de assistir a ‘A Última Caçada’ – tenho de voltar a este filme -, queria comprar um livro sobre Richard Brooks, mas encontrei somente um álbum, que era caro e eu estava sem cartões (que perdi no aeroporto de São Paulo, na ida). Mas comprei uma coletânea de ensaios coordenada por Denitza Bantcheva na coleção Cinemaction, criada por Guy Hennebelle. Como resistir? ‘Visconti dans la Lumière du Temps’ divide-se em capítulos com os títulos ‘Filmar e Refazer a História’, ‘Temas e Leitmotiv’, ‘Fontes de Inspiração’ e ‘A Paleta do Mestre’, com ensaios de diversos autores sobre o grande Luchino. Li vários e são maravilhosos. Há um ainda um apêndice formado por testemunhos. Devorei os de Suso Cecchi D’Amico, a grande roteirista da qual o próprio Visconti dizia que conhecia melhor sua obra do que ele; Jean Sorel; e Dominique Sanda, que faz a mãe do Professor Burt Lancaster em ‘Violência e Paixão’, inspirada em Carla Erba, mãe do artista. Dominique conta como Visconti forneceu o retrato de dona Carla ao maquiador e ao figurinista, para que Dominique ficasse exatamente como sua mãe. Na quarta, antes de ir para o aeroporto, passei por outra livraria, a Gilbert Jeune, na esquina do Boulevard Saint Michel com a Rue de La Huchette. Havia um Visconti em oferta, baratinho (9 euros). Monica Stirling é a autora de ‘Visconti’, um misto de biografia e ensaio que dá conta da riqueza e complexidade do personagem. É volumoso, mas já estou terminando. Lê-se como um romance, a começar justamente pelo fim, Monica chegando a Roma para o funeral, que teve honras de Estado. Não apenas li, como reli, um capítulo inteiro, aquele que descreve as atividades do jovem Luchino, ligado à resistência antifascista, durante a 2ª Guerra. Como ele escondia intelectuais e partisans num palácio da família, como foi preso e interrogado pelo mais notório torturador nazista em Roma, e como foi condenado à morte, esperando nove dias pela execução da sentença e sendo salvo para filmar, depois, a pedido do governo provisório, a execução do homem que queria matá-lo. Nunca vi este filme mítico, ‘Giorni di Gloria’, que celebra a libertação de Roma, mas bem que gostaria. Monica Stirling faz uma descrição impressionante sobre o célebre massacre das Fossas Adeantinas, quando os alemães mataram centenas de italianos, em represália a um ataque da resistência. O próprio Hitler ordenou que fossem mortos 50 italianos por cada um dos 33 nazistas mortos no atentado. O comandante-geral de Roma reduziu os 50 para dez e, assim, ‘apenas’ 330 italianos deveriam ter sido executados, mas nas Fossas Adeantinas encontraram-se 350 (ou quase) cadáveres. Essa história terrível inspirou uma ficção de George Pan Cosmatos com Richard Burton e Marcello Mastroianni, ‘O Massacre de Roma’. O filme, formatado para a dupla de astros, um como padre, outro como militar e ambos atormentados por dúvidas, não me produziu, até onde me lembro, um décimo da emoção que tive lendo o relato de Monica Stirling. E o livro dela é cheio de fotos. Dona Carla, o pai de Visconti, sua irmã Uberta, de uma beleza singular. Visconti, que era edipianamente devotado à mãe – ele assumia que era a pessoa a quem mais amou -, perdeu dona Carla, o pai e o irmão em poucos meses, numa sucessão de tragédias que o abalou profundamente. O irmão mais jovem, o ‘cadet’, morreu na guerra, na África. Vou entrar agora justamente na parte em que Monica conta a fase de criação de ‘Rocco e Seus Irmãos’. Ia iniciar ontem à noite, mas estava cansado. Uma coisa assim a gente – eu, pelo menos – tem de ler com a devoção dispensada a um livro sagrado.