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Luiz Carlos Merten

17 Março 2011 | 18h49

Vejam como são as coisas. Há cinco anos, queria homenagear meu amado Luchino Visconti, no 30º aniversário de sua morte. Comentei com André Sturm, da Pandora e do Belas Artes, e André promoveu um ciclo de Visconti, para que não apenas eu pudesse reverenciar o cineasta dos cineastas. Hoje, em outro 17 de março, são 35 anos da morte de Visconti. Coincidentemente, o Belas Artes cerra hoje suas portas com uma programação especial. O último filme – pela duração – será de Visconti, ‘O Leopardo’. Revi o clássico adaptado do romance de Giuseppe Tommaso di Lampedusa, recentemente, em Cannes Classics. Mas lá estarei hoje. Homenagem a Visconti? Mais uma? Saudades antecipadas do Belas Artes? Quando cheguei a São Paulo, no fim dos anos 1980, o conjunto de salas da Rua Consolação já passara por várias fases (e reformas). Nunca fiz segredo para ninguém que não gostava daquelas poltronas. Elas eram anatômicas para quem? Nunca consegui me encaixar direito nelas. Sofria por antecipação, sabendo que ia ficar com o pescoço duro, mas o Belas Artes era um dos meus templos. Tive o privilégio, em certos momentos, de ter aquelas salas inteiras exclusivamente para mim. André e Léo fizeram muitas sessões só para mim. Mas eu gostava era das sessões cheias de gente, dos debates de que participei no Belas Artes. Hoje, na última sessão, vamos – nós, cinéfilos – enterrar o Belas Artes. Enterrar? André Sturm já disse que o Belas Artes é mais que um local de exibição. É um estado de espírito e, por isso, ele acredita que será possível reviver o Belas Artes em outro espaço. Gravei há pouco um comentário sobre Visconti para o portal do Estado. Já deve estar no ar, aproveitando a data. Sempre me impressionou muito o relato que Bruno Villien faz da morte de Visconti, em seu livro que tem como título o sobrenome do grande artista. Como diretor de cinema, ópera e teatro, Luchino Visconti foi o encenador da própria morte. Numa de suas últimas entrevistas, ele admitiu que pensava com frequência no assunto. ‘A morte deve ser tão natural quanto a vida’, dizia. ‘Talvez seja até melhor.’ Villien reconstitui o último dia de Visconti. O cineasta, que sofrera um derrame enquanto filmava ‘Ludwig’, padecia há anos com problemas respiratórios, preso a uma cadeira de rodas. Quando concluía a montagem de ‘O Inocente’, que terminou sendo seu último filme – não chegou a vê-lo pronto –, pegou uma gripe. No dia 17 de março de 1976, há 35 anos, assistido pela irmã, Uberta, decidiu que estava cansado e não iria se levantar. Pediu para ouvir ‘A Segunda Sinfonia’, de Brahms. Ouviu duas vezes e disse – ‘Adesso, basta.’ Agora, chega. Virou-se para o lado e morreu. Não sei se essa história é verdadeira ou se Villien, como John Ford em ‘O Homem Que Matou o Facínora’, imprimiu uma lenda. Só sei que essa história me agrada muito. Tive, tardiamente, a revelação da data. Meu editor, Ubiratan Brasil, me disse que o Márcio, do portal, queria gravar comigo, sobre Visconti. Ele próprio me perguntou – ‘É alguma data?’ Só então me caiu a ficha do dia 17 de março. Aos 35 anos da morte do meu mais amado diretor de cinema, soma-se agora o fechamento do Belas Artes. Visconti, talvez pressionado/amargurado pelas restrições de sua fase final, acreditava na morte como uma libertação e que ela poderia ser melhor que a vida. O Belas Artes, como um estado de espírito, poderá ressurgir em novo local, novas circunstâncias. Acredito, sinceramente, que isso vai terminar ocorrendo. O próprio André Sturm, me informa o Zanin, escreveu um texto dizendo que talvez ainda não seja o fim (nem naquele espaço). Um fechamento provisório, talvez. Não estou triste. Talvez esteja um pouco ansioso, febril. Mais uma vez Tancredi vai dizer que as coisas têm de mudar, para que tudo permaneça o mesmo. Sob o olhar do príncipe Burt Lancaster, Alain Delon vai dançar a valsa com Angélica Sedara, a deslumbrante Claudia Cardinale, selando a união da aristocracia decadente com a burguesia ascendente. Claudia vai rir, aquele riso escandaloso. E ela vai arfar, perseguida por Delon naquelas imensas salas vazias, corroídas pelo tempo, Visconti morreu há 35 anos, mas sua criação (sobre)vive. Enquanto houver cinema… Se não houver, e eu estiver vivo, o filme vai continuar passando na minha lembrança, mesmo assim.