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Violência e Paixão é sobre a Itália, em 1974, ou o Brasil em 2018?

Luiz Carlos Merten

31 Março 2018 | 23h22

Confesso que tomei um choque revendo Violência e Paixão. E se for o maior filme de Visconti? Já contei no post anterior como Suso Cecchi D’Amico me relatou – depois da trombose, com a saúde debilitada, Luchino precisava de estímulo para seguir vivendo. Salvou-o, por um tempo, o trabalho. Peças, filmes. Mas os filmes tinham de ser concentracionários. Nada de deslocamentos. Gruppo di Famiglia in Un Interno, ou Conversation Piece, nasceu assim. Um só cenário – o apartamento do Professor, invadido pelos fantasmas do passado (a mãe, a mulher) e por Bianca Bramanti com sua trupe. Arrivano i fascisti. Bianca, riquíssiuma, o amante, que foi revolucionário em Maio de 68, a filha e o fidanzato dela. Todo mundo nu, numa orgia interminável. La mia solitudine sei tu. A minha solidão é… você. O neofascismo galopante. Violência e Paixão é sobre a Itália em 1974, ou sobre o Brasil em 2018? Já contei como Burt Lancaster avalizou o filme para os produtores. Se Visconti faltasse, ele era a garantia de que Violência e Paixão seria concluído. Piero Tosi criou o figurino de Silvana Mangano, e as jóias eram de Bulgari. Helmut Berger vestia Saint-Laurent. Tudo chic no último, mas a força do filme não vem daí. O mundo solitário, mas de bom-gosto, do Professor é invadido pela vulgaridade do capital. Konrad/Berger comete suicídio, ou é assassinado? Está na capa dos jornais de hoje, (ainda) sábado. Temer diz que estão a persegui-lo, tentando destituí-lo da vida pública. Tadinho, serviu para que muitos fossem destituídos e agora quer protestar? Estou hoje sozinho em São Paulo. Depois do filme, fui jantar no Sujinho. Havia comprado, na banca da Paulista – no Conjunto Nacional -, a Sight and Sound de março, Greta Gerwig na capa. A sessão de necrológios está imensa. Leio que morreu, aos 92, Enrico Medioli. Ele escreveu, ou co-escreveu, todos os filmes de Visconti a partir de Rocco, menos O Trabalho e acho que Morte em Veneza. Me bateu uma tristeza imensa depois de (re)ver Violência e Paixão. Visconti pode não ter antecipado a internet nem o celular, mas a m… que viraria o estado do mundo já está em Violência e Paixão. Amanhã, domingo, 1.º, ainda espero me despedir do mestre, na repescagem, revendo Senso/Sedução da Carne. Cada filme tem sido uma redescoberta. Sei lá o que esse vai me reservar…