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Cultura » Vinho com raro bouquet

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Luiz Carlos Merten

28 Novembro 2006 | 13h59

Acabo de ver Um Bom Ano, de Ridley Scott. Estou em estado de graça – amei, o que me leva a revisar meu ponto sobre o diretor, expresso na semana passada, quando voltei da Grécia. De passagem por Paris, vi o DVD com a versão completa (o corte do diretor) de Cruzada, que tem 45 minutos a mais do que o filme que vimos nos cinemas. Escrevi que tinha uma posição meio ambivalente em relação a Ridley. Gostava dele, mas não de seus filmes cultuados (Alien e Blade Runner, que são legais, claro) e sim, daqueles pelos que ele é odiado (e que são mais impressionantes, caso especialmente de Falcão Negro em Perigo). Chego agora à conclusão de que não há ambivalência nenhuma – gosto do Ridley Scott! Vou deixar para falar mais de Um Bom Ano na sexta, quando o filme estará estreando, mas já quero antecipar alguma coisa. Um Bom Ano conta a história desse canalha (um Jece Valadão do mercado de ações) que herda a vinícula do tio que não via há dez anos – e de quem se afastara justamente por ter virado o sujeito em que se transformou. Na vinícola, na velha casa em que passou a infância, Russell Crowe termina por se descobrir um novo homem. Parece banal, mas não é. Ridley Scott filtra Sideways – Entre Umas e Outras, de Alexander Payne, pelo Bergman de Morangos Silvestres, que já bebera na fonte de seu compatriota Alf Sjoberg, de Senhorita Júlia. Como no clássico bergmaniano passado e presente coexistem nas mesmas imagens, ou na mesma estrutura audiovisual porque, se às vezes é a imagem, outras é o som que traz o passado para o presente. Até aí, tudo bem. Pode ser uma questão de gostar ou não gostar, apenas. Mas Ridley há anos vem construindo uma teoria do cinema, metaforizando sobre tudo para falar de arte e vida. O espetáculo da arena de Gladiador discutia o cinemão, claro como água, mas quantos se dispuseram a perceber? A coisa, agora, é mais sofisticada. O vinho já foi metáfora de vida para Payne, mas não como aqui. Jonathan Nossiter também opôs a América à Europa (à França) em Mondovino, um dos temas possíveis no filme de Ridley Scott, mas não o mais importante. Preste atenção quando vir Um Bom Ano – o terroir que ganha avaliação zero do enólogo abriga a produção de um vinho raro, apreciado por sua qualidade. O investidor guarda seu Van Gogh no cofre e exibe a cópia, à qual não presta atenção porque sabe que não é o original. E, no fim, o cara ao qual se dirige a secretária (e que parece um rapper) é o empresário. O rapper mesmo é o que se veste como empresário. Juntem tudo isso e sai uma reflexão muito interessante sobre o falso e o verdadeiro do cinema, sobre arte e vida, sobre o prazer (de ver filmes e beber bons vinhos). A troca entre Russell Crowe, Albert Finney e Marion Cotillard é a derradeira metáfora do filme. O vinho verde, o maduro e o bouquet que a bela mulher fornece.