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Cultura » Vincent Price, especial para o Felipe

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Luiz Carlos Merten

16 Junho 2008 | 14h23

Felipe, de Erexim, lá no interior do Rio Grande – mas bá, tchê, muito frio por aí? –, me pede que escreva alguma coisa sobre Vincent Price, já que andei me referindo ao ator, depois de assistir a ‘O Abominável Dr. Phibes’, de Robert Fuest, no fim de semana. Felipe gosta muito de Vincent Price e nunca ligou muito para o fato de que ele fosse chamado de canastrão pelos críticos. O Gastal – Paulo Fontoura Gastal, no ‘Correio do Povo’ e na ‘Folha da Tarde’ (como Calvero) – sempre o definiu assim e eu tenho a impressão de que quando Gastal escrevia o nome do ator (era no tempo da máquina de escrever) o aposto ‘canastrão’ já vinha como complemento, no piloto automático. Na verdade, tenho para mim que o Vincent Price foi um ator adiante de sua época. Telmo Martino escreveu, quando ele fez 80 anos, que Vincent Price era o gentleman do horror, tendo criado o gênero sinistro-elegante, de quem não precisava verter uma gota de sangue para assustar o público de filmes de terror. Parei um pouco com a redação do post e fui ao arquivo do Estadão, ‘cavoucar’ na pasta do Vincent Price à procura do referido texto. Olhem a frase – ‘Embora a maioria dos seus filmes seja de horror, ele (Price) nunca deixou que uma gota de sangue maculasse seu avental branco de cientista louco ou a seda de seu colete de castelão ensandecido. Uma vez gentleman, sempre gentil-homem.’ Nada como boas maneiras, completa Telmo Martino. Vincent Price conseguiu o prodígio de, ainda em princípio de carreira, ter feito o gigolô de ‘Laura’, a obra-prima noir de Otto Preminger, em 1944, na qual se envolvia com a deslumbrante Laura Tierney e a – como direi? – não tão bela, ou nem um pouco bela, Judith Anderson, antecipando o que seria seu futuro nas mãos de Roger Corman. Foi o vestibular de Vincent Price. Quem namorou Judith Anderson, mesmo que na tela, não se assusta com o além. Vincent Price fez filmes que fazem parte do meu imaginário – ‘Laura’, claro, e também ‘Amar foi Minha Ruína’, de John Stahl; O Solar de Dragonwyck’, de Joseph L. Mankiewicz, os três com Gene Tierney; ‘O Barão Aventureiro’ (ou ‘do Arizona’), de Samuel Fuller; ‘Os Três Mosqueteiros’, de George Sidney; ‘Museu de Cera’, de Andre De Toth; ‘No Silêncio de Uma Cidade’, de Fritz Lang; ‘A Mosca da Cabeça Branca’, de Kurt Neumann; ‘Edward Mãos de Tesoura’, de Tim Burton, e a série que Roger Corman adaptou de Edgar Allan Poe, pouco importando se ele era o protagonista ou não. Mesmo quando o papel era pequeno, Vincent Price roubava a cena. O interessante, e não sei se todo mundo sabe, é que ele era uma autoridade em história da arte, formado pelas universidades de Yale e Londres e com um currículo que incluía a direção ou presidência de vários museus e academias (ou universidades) de artes. Vincent Price foi um grande palestrante – dando coferências sobre arte moderna, arte primitiva e sobre as cartas de Van Gogh (ao irmão Theo), assunto que, até onde sei, ele dominava como poucos. Na era Kennedy, foi o único ator a servir no Comitê de Artes da Casa Branca, requisitado pela própria Jacqueline Kennedy (que depois virou Onassis). Acho que para o Felipe não dá, mas quem quiser conferir o Vincent Price aqui em são Paulo ainda vai dispor, no sábado, dia 21, da possibilidade de assistir a ‘O Corvo’, de Roger Corman, em que ele contracena com Peter Lorre e outro ícone do horror, Boris Karloff, no Cine Olido. A sessão será às 19h30.