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Luiz Carlos Merten

15 Agosto 2007 | 16h48

Jesuíno ficou irritado com minha releitura do filme do Paulo Caldas. Será que era ele o Campo-alguma-coisa? O outro me chamou de burro, de irresponsável, ele me condena poelas leituras apressadas que não fazem avançar a crítica cinematográfica. A verdade é que continuei não gostando de Deserto Feliz, mesmo tendo apreciado a mise-en-scène de Paulo. O filme continua não me dizendo nada, acho sem alma e não consigo me tocar com a experiência da personagem, mas acho que o diretor sabe armar um plano. Como me comentou Marcelo Janot, no fim da sessão, quando comentei com ele a beleza de certos planos. Foi ele quem me disse. Não são ‘certos’ planos, são todos, mas ele tambénm concorda que Deserto Feliz não tem alma. Devemos ser só os dois. Elaine Guerini, Maria do Rosário Caetano e Luiz Zanin Oricchio – todos amaram. E o filme, desta vez, me passou rápido, sem dar a impressão de ter o dobro da duração. Quero dizer que estou voltando a Deserto Feliz, mas não é, propriamente, para responder ao Jesuíno e sim, para aproveitar uma deixa dele. Continuo achando que o filme não tem história, no sentido tradicional e é isso que aproxima Deserto Feliz de Nacido y Criado, o longa do argentino Pablo Trapero que precedeu a exibição do de Paulo Caldas na terça à noite, no Palácio dos Festivais. Os curadores José Carlos Avellar e Sérgio Sanz com certeza devem tê-los programados para a mesma noite por causa dessa aproximação. Trapero havia feito Família Rodante, sobre uma família disfuncional (como a de Pequena Miss Sunshine) na estrada da vida. Ele volta agora à estrada contando a história desse homem bem sucedido, com uma mulher e uma filha lindas, uma confortável situação material e um trabalho criativo. Um homem urbano cuja vida vai para o ralo quando ele sofre um acidente de carro na estrada e, convencido de que matou a família, vai viver como nômade nos confins da Argentina austral (e gelada). A história de Nacido y Criado é um arco dramático feito muito mais das sensações de angústia e perda do (anti)herói do que por uma trama coesa e cheia de peripécias. Acho que Deserto Feliz e Nacido y Criado, diferentes como são, têm tudo a ver. Gostei mais do filme argentino, que tem um ator maravilhoso (Guillermo Pfening). Aliás, não se trata nem de dizer gostei mais. Gostei ‘tout court’, o que é diferente de dizer que continuo não gostando de Deserto Feliz, apesar de reconhecer qualidades que me haviam passado despercebidas. A gente não gosta de um filme só porque é bem feito. Eu gosto de vários cujos defeitos estão na cara. Desero Feliz será distribuído por Filmes do Estação. Já encontrei, aqui, o Paulo Caldas e combinei de fazermos uma entrevista quando passar no Festival do Rio, no mês que vem.

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