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Luiz Carlos Merten

11 Março 2012 | 13h04

Não, ainda não é a comédia de Dino Risi, com Alberto Sordi, sobre a qual prometi falar. O filme de 1961 antecede ‘Il Sorpasso’, Aquele Que Sabe Viver, que marcou a consagração internacional de Risi e, ouso dizer, deu pleno reconhecimento à comédia italiana como gênero (com o ‘Divórcio’ de Pietro Germi, que a crítica hostilizava na época). Vou continuar devbendo o comentário. Não sou de ficar me queixando, mas minha sexta, no Rio, para entrevistar Reese Whiterspoon, foi estressante. Acho que nunca fiquei tanto tempo à disposição do que, afinal, foram uma coletiva e uma mini (sentei-me na primeira fila e fiz muitas perguntas, mas, mesmo assim…). Saí do hotel às 8h15 e só às 16h30 fiquei liberado. Socorro! Com o trânsito de final de tarde no Rio, consegui chegar à sucursal por volta das 18 horas, em pleno deadline da edição de sábado, e com matérias para fazer. Reese foi simpática e estava linda (bem melhor do que no ‘Água para Elefantes’). Redigi meus textos, jantei e resolvi passar no hotel, onde liguei a TV e… Desabei! Acordei de madrugada, eu, hein? O sábado não foi muito melhor. Pela manhã, tudo bem, mas a tarde foi complicada. Fui para o aeroporto e o voo havia sido cancelado por causa da chuvarada em São Paulo. Quando cheguei, meu prédio estava às escuras, sem força e eu tive de subir os oito andares a pé para dar comida à Angel, a buldogue de minha filha.  Ficamos, Angel e eu, sentados no escuro, no sofá. Eu pensava na vida, ela ronronava como gata. Terminei indo jantar com a Lúcia, que voltou da praia, e duas amigas delas, a Laura e a Fabí, na Rua dos Pinheiros. Moqueca, com direito a caipirinha (com adoçante, por causa da diabetes!) e vinho. Não me restou outra coisa senão dormir de novo e vir para o jornal, fazer os filmes na TV de amanhã. Estou louco para ver o ‘John Carter’. Edgar Rice Burroughs foi a leitura de minha infância e adolescência. Só depois de devorar tudo dele, minhas leituras escolares me levaram a Monteiro Lobato e Machado de Assis. Meu primeiro Machado foi ‘O Memorial de Aires’ e até hoje guardo um carinho especial pelo livro, cuja última frase, a observação sobre o casal de velhos – ‘Consolava-os a tristeza, ou a saudade, deles mesmos’, alguma coisa assim – me acompanha pela vida. Vou gostar de ‘John Carter’? Tomara, mas as referências não são boas. Por falar em casal de velhos, como estava no Rio, na sexta, perdi a estreia da nova peça de meu amigo Dib Carneiro. Embora ele tenha ganhado o Shell por ‘Salmo 91’ e tenha feito o que, para mim, é um trabalho brilhante na adaptação de ‘A Crônica da Casa Assassinada’, tenho para mim que ‘Paraíso’, a peça em questão, é a melhor do Dib. Por isso mesmo, estou triste (apreensivo?) pelo meu amigo. Dib foi ver o espetáculo na sexta e não se reconheceu no palco. O diretor, Antônio Abujamra, que já disse que não gosta de encenar autores vivos, enxertou um monte de coisas no texto e, segundo me contaram – não o Dib, com quem nem consegui falar -, terminou seu assassinato com uma mise-en-scène que, já ouvi dizer, piedosamente, é aborrecida. Vou ver hoje para tirar a teima, mas a história do diálogo do casal de velhos tinha um encanto todo especial para mim. Havia o livro de Josué Guimarães, ‘Enquanto a Noite não Chega’, com uma dimensão meio fantástica, realismo fantástico latino-americano, alguma coisa assim. O casal de velhos numa cidade que está sendo devorada pela areia (e pelo tempo, tudo a mesma coisa). Sempre fiz uma ponte entre o livro do Josué e o de Gabriel García Márquez, ‘Ninguém Escreve ao Coronel’. O mesmo abandono, a mesma solidão… Quando fui jurado da Caméra d’Or, em Cannes, tomei um primeiro choque ao fazer a aproximação do casal de velhos de Josué Guimarães com os da paraguaia Paz Encina, em ‘Hamaca Paraguaya’. Já contei mil vezes que não concordei nem um pouco com a escolha dos irmãos Dardenne, que presidiam aquele júri e escolheram, na base do dirigivismo,  ‘A Leste de Bucareste’. Eu não estava lá para dar voz aos latinos, mas meus preferidos eram ‘Hamaca’ e ‘Honor de Caballeria’, de Albert Serra, livremente adaptado de ‘Dom Quixote’, que os Dardenne não conseguiram entender (nenhum dos dois). Não sei se Paz fez alguma coisa depois, mas de Albert Serra assisti a ‘El Cant dels Ocells’, baseado na história dos Reis Magos e o cara é de um rigor na sua reinvenção do classicismo que me deixa louco. Qual não foi minha surpresa, lendo a peça do Dib, ao encontrar o casal de velhos que fala, fala, esperando o quê? O filho, a morte, Godot? Dib não conhecia o livro do autor gaúcho nem o filme da diretora paraguaia. Como ocorrem essas coincidências de pensamento? A própria Paz não tinha consciência de ‘Enquanto a Noite não Chega’. Gostaria de ver a peça do Dib, mas parece que não é isso que me aguarda em ‘Paraíso’. Mesmo assim, eu vou.