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Luiz Carlos Merten

31 Maio 2011 | 10h15

Fiz ontem uma extensa pesquisa nos arquivos do Estadão em busca de fotos para ilustrar uma matéria sobre ‘A Longa Noite de Loucuras’, que sai em DVD pela Platinum. Aqui cabem dois comentários. Um, refere-se ao próprio filme, que me marcou muito, iniciando minha secreta adoração por Mauro Bolognini, difícil de assumir na época (o começo dos anos 1960) porque, para a minha geração em Porto Alegre (Jefferson Barros, Enéas de Souza, José Onofre), ele não passava de um Luchino Visconti em tom menor. Quando Bolognini, finalmente, obteve reconhecimento – Jean Tulard o tem na conta de grande realizador –, surgiu uma outra corrente, que supervalorizava o aporte de Pier Paolo Pasolini aos roteiros de ‘A Longa Noite’, ‘O Belo Antônio’ e ‘Um Dia de Enlouquecer’, novamente minimizando a importância do diretor. Com todo respeito pelo formidável polemista que foi Pasolini, seu cinema de poesia não vale, para mim, o de prosa de Bolognini, mas não estou agora aqui a fim de discutir com ninguém. O que quero é relatar minha experiência. Quando ‘As Horas Nuas’, o cult de Mario Vicario, passou na Cinemateca, também fui ao arquivo do Estadão em busca de imagens do filme estrelado por Rossana Podestà. Viajei naquelas fotos que evocavam filmes (emoções?) da minha juventude. Agora, buscando as imagens de ‘A Longa Noite’, bati nas pastas de Laurent Terzieff, Rossana Schiaffino, Elsa Martinelli, Antonella Lualdi, Jean-Claude Brialy, Mylene Démongeot. Fiquei horas (exagero) manuseando aquelas fotos e tentando me lembrar das circunstâncias em que vi esse ou aquele filme. Ah, a minha madeleine. Mylène Démongeot. Loira e linda, ela pode ter sido ofuscada por Brigitte Bardot – e até anulada por ela para a história –, mas o trio BB/Mylène/Pascale Petit lotou o antigo cinema Cacique, no qual foi exibido ‘O Ponto Fraco das Mulheres’ (Faibles Femmes), de Michel Boisrond, cujo galã era, é bom lembrar, o jovem Alain Delon. As costas de Rossana Schiaffino – nuas, elas ocupavam toda a tela em ‘A Mandrágora’, que Alberto Lattuada adaptou de…, com o lendário Totò. E Elsa Martinelli? Em 1964, ela veio passar o carnaval no Rio e existe todo um ensaio fotográfico de Elsa, vestida de baiana, nos bailes do Copacabana Palace. Uma coisa puxa a outra e lembrei-me de Elsa em Hollywood, no ‘Hatari!’, de Howard Hawks. Sean Wayne, como Sean Mercer, reúne os homens na excitação da caçada aos animais vivos. Elsa, como Dalas – e com aquele vestido vermelho! –, reúne todo mundo na casa, ao redor do piano. O embate dos sexos. Sean defronta-se com a natureza; Dallas identifica-se com ela, adotada, como mãe, pelo elefantinho que a segue por toda parte, ao som do hit de Henry Mancini, ‘O Passo do Elefantinho’. Em Paris, a caminho de Cannes, comprei baratinho, na Gibert Jeune, o livro de memórias de Brialy, ‘Le Ruisseau des Singes’. Durante o festival, nas horas ‘vagas’, devorei o livro cujos personagens são os amigos de Jean-Claude – Alain Delon, Romy Schneider, Claude Chabrol, Luchino Visconti, Arletty, Jean Gabin etc. Em 1959, no ano de ‘A Longa Noite de Loucuras’ (La Notte Brava), Brialy já possuía um nome na França, graças a ‘Nas Garras do Vício’ (Le Beau Serge) e ‘Os Primos’. Seu agente o convenceu de que ele deveria filmar na Itália, que seria bom, por causa das co-produções. E surgiu o papel em ‘Les Garçons’, o título francês de ‘La Notte Brava’. Brialy, gay assumido, fala de sua experiência no set. Bolognini era um gay travado, que parecia um núncio apostólico. Pasolini vivia cercado de garotos nos becos e lugares ermos em que filmavam aquelas histórias de prostitutas e gigolôs. O tema de ‘La Notte Brava’ é menos o sexo do que o dinheiro, uma nota que, na última cena, fecha um ciclo e remete ao começo. Os personagens fazem tudo por dinheiro, mas ele não vale nada e é lançado ao lixo. Foi duro encontrar as fotos de ‘A Longa Noite de Loucuras’, mas o meu prazer da busca foi enorme. Não só as garotas, todas sexys. Laurent Terzieff, ator de Roberto Rossellini (‘Vanina Vanini’). Viajei!

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