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Viajando entre livros e filmes

Luiz Carlos Merten

18 Março 2007 | 20h56

Quem leu minha cobertura do Festival de Berlim, sabe que me apaixonei pelo novo filme de Jacques Rivette, Ne Touchez Pas la Hache. Fui ver como gosto de fazer, quando estou em festivais de cinema – sem ler nada, nem a sinopse do material do dia que, geralmente, é entregue à imprensa. Levei um choque ao descobrir que se trata de uma adaptação de A Duquesa de Langeais, de Balzac. O próprio Rivette explicou, depois, a mudança do título. Ne Touchez Pas la Hache era o título do folhetim, quando saiu na imprensa parisiense, no século 19. Só mais tarde, quando Balzac organizou a edição de sua Comédia Humana, a história foi rebatizada e ganhou o título da Duqueza. Por que conto isso? Um pouco para manter aceso o interesse de vocês pelo filme, que é interpretado por Jeanne Balibar e Guillaume Dépardieu e os dois estão geniais (ele era minha segunda oppção para melhor ator, após o argentino Júlio Chavez, que ganhou). Mas conto também porque sou doido por Balzac. Visconti gostava de Proust e Thomas Mann. Tenho amigos que amam os russos (Dostoievski à frente), mas eu tenho essa fascinação pelos franceses – Balzac e Stendhal, que leio e releio, sem parar. O bom da Comédia Humana é que ela parece inesgotável. Leio, leio e sempre aparece um volume novo, como Ferragus, que a L&PM lançou na sua coleção de Bolso. Comecei a ler e já estou adorando. A história da organização secreta passa pela Duquesa de Langeais, quando Marivaux recorre aos amigos para primeiro punir a amante que zomba dele e, depois, para procurá-la, quando ela desaparece. Comecei este post falando sobre Rivette e Balzac, mas tenho a impressão que ele vai seguir uma via bem mais tortuosa. Hoje fiquei pensando nos autores de que gosto – além dos dois já citados, Machado de Assis, Eça de Queiroz, Erico Verissimo (O Tempo e o Vento). E Joseph Conrad, cujo Lord Jim é cult total, para mim. Não sei o que houve comigo, hoje. Não sei em que momento Lord Jim me veio, principalmente aquela descrição do desfecho, que até hoje (não li o original inglês) não sei se é poesia do próprio Conrad ou do tradutor Mário Quintana. Aquela coisa de que Jim desaparece, mas vai estar sempre presente. Acho lindo! Fiquei morrendo de vontade de rever o filme de Richard Brooks, com Peter O’Toole. Encontrei o DVD, certa vez, na Virgin, mas na hora comprei o Samurai Rebellion (Rebelião), do Kobayashi, e deixei Lord Jim para depois. A gente só se arrepende do que não faz. Deveria ter comprado na hora, não deixado para depois. Lord Jim é um filme que sumiu. Faço os filmes na TV do Caderno 2 desde 1989 (18 anos!) e há muito, muito tempo ele não passa na TV aberta nem na paga. Ou será que me escapou? Acho Lord Jim a mais bela das histórias de segunda chance, da literatura como do cinema, e me emociono muito com a interpretação do Peter O’Toole. Richard Brooks pertence àquela geração que mudou o cinema americano nos anos 50. Queria homenagear esta geração em meu livro Cinema – Entre a Realidade e o Artifício e confesso que hesitei entre Anthony Mann, Richard Brooks, Nicholas Ray e Robert Aldrich. Achei que Ray, pelo culto que Wenders e Godard lhe dedicam, seria uma escolha fácil. Descartei Mann porque, embora ame seus westerns e épicos dos anos 60, não conheço tanto os filmes noir do fim dos anos 40. Fiquei entre Brooks e Aldrich e terminei optando pelo segundo porque sua trajetória me apaixona. O cara teve um começo fulgurante, foi ao fundo do poço e, como a fênix, ressurgiu das próprias cinzas para refazer, nos anos 60 e 70, como espetáculos, seus grandes filmes dos 50. Mas sempre fiquei em débito, comigo mesmo, com Brooks. Ele tem três grandes filmes que formam uma trilogia insuperável – Lord Jim, Os Profissionais e À Sangue-Frio, baseado no livro do Capote. Brooks foi fundo na discussão da ética, dos costumes e da revolução (que fornece o fundo de Lord Jim e Os Profissionais). Sempre achei linda a história que Jean Tulard conta em seu Dicionário de Cinema. Ele lembra que Brooks, nos sets de seus filmes, não dizia ‘Corta!’, no fim de uma cena, mas ‘Obrigado’. Não sei se é verdade, mas é coerente com a grandeza e humanidade de seu cinema.