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Luiz Carlos Merten

21 Junho 2007 | 15h44

Estréia amanhã um filme do qual gostei. Aliás, assisti duas vezes. Vi no avião, indo para Cannes, a versão reduzida. Como gostei, terminei vendo nos cinemas de Paris, após o festival, a versão completa. Não sabia – ó falta de informação! – que seria lançado em seguida no Brasil. Mas, enfim, é O Despertar de Uma Paixão, que John Curran adaptou do romance O Véu Pintado, de W. Somerset Maugham. Vamos por partes, como diria o esquartejador. Edward Norton adora o livro e batalhou para que o filme fosse feito, mas vale lembrar que Bill Murray também adorava outro livro de Maugham e condicionou sua presença na seqüência de Os Caça-Fantasmas ao fato de que a Columbia produzisse O Fio da Navalha para ele interpretar. Saiu um filme tão insípido que pouca gente deve se lembrar de que foi feito. Curran foi mais bem-sucedido e contou, não apenas com Norton, mas com Naomi Watts. Li em algum lugar, acho que no próprio avião, que ela fez o filme numa brecha de (ou logo após) King Kong. Estava exausta E a produção começou pela China assolada pela peste. Naomi acha que nem precisou fazer muito esforço para entrar no clima. Quero confessar para vocês que gosto de Somerset Maugham. Ele já era best seller nos anos 30, antes que surgisse o conceito, e continuou vendendo nos 40 e 50. Hollywood contribuiu para sua popularização, filmando (e refilmando) vários de seus livros. Servidão Humana teve versões com Bette Davis e Kim Novak, A Carta foi filmado com Bette (um suntuoso melodrama de William Wyler) e O Fio da Navalha tinha Tyrone Power e quem mesmo? Gene Tierney e Anne Baxter, que ganhou o Oscar de coadjuvante. O próprio O Véu Pintado foi filmado por Richard Boleslawski, com Greta Garbo, em 1934. O véu pintado é uma metáfora da própria vida. Kitty é a inglesa frívola que vê a vida como véu pintado, filtrada pelas convenções sociais. Membro de uma família empobrecida, mas que tenta manter a pose, ela recusa sucessivos casamentos e surta quando a irmã mais nova arranja um marido. Kitty resolve então casar-se com o primeiro homem que aparecer. Aparece um médico idealista, a quem ela não ama e a quem, naturalmente, corneia. O marido descobre e a arrasta para o interior da China, onde grassa uma epidemia de cólera. O livro conta a história da reconstrução de Kitty, de como ela amadurece como mulher. O filme, talvez pelo empenho de Edward Norton, mantém a força da mulher, mas também faz o homem passar por outra transformação para que ambos tenham sua segunda chance. É muito bonito, e os atores estão maravilhosos. Confesso que Somerset Maugham é um escritor demodê que eu adoro ler. A estrutura de seus livros é romanesca, um pouco antiga, e é verdade que ele passou do sucesso para o esquecimento muito rapidamente. Mas se a escrita é antiga, há nele uma modernidade que me atrai. O tema de Maugham é sempre a volúpia da mulher. Suas heroínas, nos anos 30 e 40, tinham consciência de suas necessidades sexuais e as faziam valer. Isso termina sempre por provocar cataclismos na sociedade patriarcal. Mas, realmente, não foi por acaso que a ‘malvada’ Bette Davis talvez tenha sido a mais impressionante das heroínas de Maugham. A mais impressionante, mas não a mais bela. Apesar de Gene Tierney em O Fio da Navalha, a mais bela é… Naomi Watts, claro.