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Cultura » Véu pintado, ou ‘Imitação da Vida’

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Luiz Carlos Merten

14 Outubro 2009 | 11h51

Meu colega Antônio Gonçalves Filho me salvou ontem. Ele veio me contar que havia feito um programa duplo de Audrey Hepburn no feriadão, assistindo a ‘Bonequinha de Luxo’ e ‘Infâmia’ em DVD, no fim de semana. Disse-lhe que havia escrito uma matéria sobre o filme de William Wyler e que ela estaria na edição de hoje do ‘Caderno 2’. Toninho foi checar e descobriu que, mais uma vez, ao citar no automático o nome do autor de ‘Reparação’, o escritor Ian McEwan, eu escrevera o nome do ator, Ewan McGregor. Não é a primeira vez que isso ocorre, m… Citei o McEwan porque ele com certeza deve ter visto o belo filme de Wyler, ou lido a peça de Lilian Hellman que lhe deu origem, antes de escrever ‘Atonement’, que virou ‘Desejo e Reparação’ no cinema. A personagem da menina que provoca uma tragédia ao dizer o que acha que viu é a mesma em Wyler e McEwan, se bem que a garota do filme, muito boa, é mais maldosa na sua maledicência. Isto posto, Toninho acrescentou que também (re)viu ‘Imitação da Vida’, o c lássico de Douglas Sirk que também saiu em DVD (e eu amo). Os espelhos de Sirk, as escadarias… Já falei aqui várias vezes sobre este diretor – autor – que muito admiro, pela inventividade de sua mise-en-scène. As pessosas ficam tentando achar inventividade nuns m… que só copiam. Quem inventava era o Sirk. Ele veio do teatro, era homem de grande cultura e fez dos seus melodramas na empresa Universal, entre ‘Sublime Obsessão’, de 1954, e ‘Imitação da Vida’, de 1959, o ideal de uma representação do mundo, do fim do mundo, na qual a fonte é a tragédia grega, em que tudo se passa em família, num mesmo lugar. Ao encerrar ‘Imitação’ com o funeral de Juanita Moore, Sirk deve ter se dado conta de que estava terminando um ciclo, não apenas de sua obra, mas do cinema (e da própria história com H). O filme trata de família, mas também trata de integração racial. Os anos 1960 assistiriam à radicalização das lutas por direitos civis nos EUA. Sirk, tendo atingido o sommet de sua arte – e o máximo do sucesso de público –, viu-se num dilema, conforme confessou a Jon Holiday, no livro com a entrevista que lhe concedeu. O que fazer, depois de um filme tão conclusivo? Repetir-se? Apesar da pressão do estúdio, ele preferiu abandonar o cinema e os EUA, regressando à Europa, onde morreu quase 20 anos depois, em 1987. Sirk virou ídolo de Godard, de Fassbinder e Lacan, que amava o véu pintado de seu cinema – estou pegando carona no título de um romance de W. Somerset Maugham – e terminou influenciando Todd Haynes, discípulo de Lacan, para que fizesse o sublime ‘Longe do Paraíso’, que, a despeito de ter identidade própria, oferece uma súmula do cinema de Sirk. (Re)Vejam ‘Infâmia’ e ‘Imitação da Vida’. Vocês só terão a ganhar com isso. Como era boa Susan Kohner, a filha mestiça de Juanita Moore, que se faz passar por branca no clássico de Sirk. Sempre a achei parecida com Natalie Wood e, por isso, Susan talvez não tenha deslanchado na carreira, mesmo trabalhando com diretores importantes. Ela também fez ‘Freud, Além da Alma’, de John Huston. Sua cena de imitação de ‘Mummy’, a negra servil de ‘…E o Vento Levou’ e, depois, a ruptura com Troy Donahue, dão a medida de um grande talento que se eclipsou com o fim do cinema de estúdio.