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Luiz Carlos Merten

06 Abril 2009 | 18h17

Falei sobre o ciclo do cine Olido e não esclareci que se trata de um panorama do cinema inglês contemporâneo, que começou dia 31 (de março) e vai até 1º de maio. A programação inclui filmes de grandes diretores como Stephen Frears (‘Liam’, amanhã, às 17 h) e Ken Loach (‘Riff Raff’, dia 16, às 17 h), mais um monte de Mike Leighs, Peter Greenaways etc, mas eu confesso que gosto particularmente de dois filmes de Terence Davies e Derek Jarman, que recomendo que vocês vejam. ‘Vozes Distantes’ passa quinta, dia 9, às 17 h. Davies iniciou-se com uma trilogia autobiográfica, ‘Children’, ‘Madonna and Child’ e ‘Death and Transfiguration’, mas ‘Distant Voices/Still Lives’ é único, com aquelas cenas cantadas da vida familiar. As músicas líricas fornecem um contraponto à brutalidade e opressão das vidas daquela gente pobre e, ainda por cima, sujeita aos humores de um pai cruel. O filme não conta propriamente uma história nem tem uma rígida estrutura dramática. As cenas são como tableaux vivants, em que os personagens cantam, sem que o diretor se sinta obrigado a construir para eles uma coerência ou, mesmo, progressão psicológica. Entrevistei Terence Davies diversas vezes e o encontrei no ano passado na Polônia. Ele é gay, de carteirinha, super-gente fina. Estava amargurado porque, como diz, não consegue financiamento para filmar, mas fez um bonito documentário sobre Liverpool, sua cidade. Não me lembro se passou no Festival do Rio nem na Mostra de São Paulo. Em caso negativo, espero que Amir Labaki o traga no lado B do É Tudo Verdade de 2009, em julho. Vai valer a pena. O outro british movie também é de um autor gay, e militante, o falecido Derek Jarman, que morreu de aids, em 1993. ‘Edward II’ baseia-se na peça de Marlowe sobre o rei homossexual que traz o amante da França e provoca a ira da rainha, interpretada por Tilda Swinton, que ganhou a Taça Volpi de interpretação feminina em Veneza, onde a entrevistei, bem como a Jarman. Tenho uma lembrança afetiva desses filmes, e diretores, porque foi com Davies uma das primeiras entrevistas que fiz por telefone, em inglês, o que na época ainda era meio intimidador para mim. Veneza também foi meu primeiro festival internacional, em 1991, e eu despenquei no Lido meio de paraquedas, emplacando de cara as entrevistas com o pessoal de ‘Edward II’, que ganhou. Lembro-me de me desculpar com Davies e ele, generosamente, me dizer que tudo bem, porque o português dele seria muito pior que o meu inglês podia ser. Jarman já estava debilitado, mas, naquele tempo, há 18 anos, as entrevistas não eram de grupo. Eram individuais e ele me deu uma aula de Marlowe, ao mesmo tempo que analisava o recorte gay de seu cinema, em filmes como ‘Sebastiane’ e ‘Caravaggio’. Jarman foi cenógrafo de Ken Russell, no tempo em que ele revolucionava o cinema inglês (com ‘Os Demônios’ e ‘Messias Selvagem’). Tilda Swinton era a atriz fetiche do diretor e, até hoje, é a sacerdotiza do culto a Jarman, lutando para manter viva a lembrança do diretor. Sei que esses filmes não são para todos os públicos, mas podem ser enriquecedores. E, mesmo para não gostar, é preciso ver para formar opinião.

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