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Luiz Carlos Merten

24 Setembro 2007 | 11h06

RIO – Estou para comentar há dias. Nem se lembro mais se foi na madrugada de sexta ou sábado, mas cheguei ao hotel, após as exibições do festival, que têm passado da meia-noite, dei uma zapeada e estava passando o Vertigo. Lembro porque no outro dia alguém comentou aqui no blog que achava Vertigo (Um Corpo que Cai) o maior filme de todos os tempos. Não me lembro maias se o maior filme, ou o maior filme americano. Peguei justamente na cena da escadaria, no campanário, quando Scottie (James Stewart) corre atyrás de Madeleine (Kim Novak) e o espaço parece que lhe falta sob os pés. Hitchcock construiu um efeito extraordinário, combinando dois movimentos de câmera (no caso, de lente), um para frente e outro trás, o que leva a um achatamento do espaço na tela. Foi uma coisa tão notável que grandes diretores não se cansam de repetí-lo. Há pouco, wim wenders fez isso em estrela Solitária, com Sam Shepard, e quando comentei com ele, disse que ele estava repetindo o mesmo efeito que Chabrol, em A Mulher Infiel, e Arthur Penn, em Alice’s Restaurant (Deixem-nos Viver) repetiram no final de seus filmes, no mesmo ano (1969). Sabia que ambos haviam imitado Hitchcock, mas o Wenders me corrigiu – disse que foi diretamente à mesma fonte que eles, Vertigo. É um dos filmes mais influentes dos anos 50. De certa maneira, na utilização do tempo e do espaço de Hitchcock (Madeleine/Judy, passado/presente) encontra-se a origem ficcional de Resnais, que já vinha investigando a memória em seus documentários. E o filme é lindo, hipnótico. A fotografia de Burks, a montagem de Tomasini e a música de Bernard Herrmann, o time mais afiado de colaboradores de Hitchcock, não permite à gente desgrudar o olho. O próprio Hitchcock definia Vertigo como um filme de amor necrófilo. Stewart/Scottie quer dormir com uma morta. Foi um raro fracasso do grande diretor – um fracasso em termos. Não foi um grande sucesso, é melhor dizer assim, talvez por essa necrofilia que assustiou o público, talvez por estar adiante de sua época. Mas é um grande Hitchcock. Prefiro Marnie porque me toca mais. A cena de Melanie Griffith pedindo ajuda a Sean Connery, depois do jogo de palavras que expõe sua fragilidade, é, na minha cabeça, comparável ao grito de angústia de Peter Lorre no desfecho de M.o Vampiro de Dusseldorf, de Fritz Lang. Foram dois criadores de pesadelos. E Hitchcock influenciou meio mundo. Resnais bebe na fonte de Vertigo, Antonioni (Blow Up) na de A Janela Indiscreta e Psicose, a cena do assassinato na ducha, é aquela coisa – além de muito imitada, está na origem do cinema clipado e da linguagem da MTV, mesmo que Cacá Diegues, no debate sobre cinema e literatura, na Bienal, tenha observado, com propriedade, que muita coisa daquilo vem da vanguarda dos anos 20 (quando o jovcem Hitchcock estava se formando, acrescento eu).