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Luiz Carlos Merten

26 Outubro 2009 | 19h12

Outro dia alguém comentou aqui que a Versátil vai lançar ‘Freud, Além da Alma’, num DVD duplo. A empresa também lança outro DVD que vale o caminho de São Tiago – ‘Vagas Estrelas da Ursa’, de Luchino Visconti, com Claudia Cardinale no papel de Sandra, a Electra viscontiana. Não sei exatamente quando serão os lançamentos nem qual o primeiro, mas parece que já é agora em novembro. Amo de paixão o ‘Vagas Estrelas’, cujo título vem de um poema de Giacomo Leopardi, sugerido a Visconti por Mario Soldati. A história de Sandra, que volta a Volterra com o marido e reencontra o irmão, com quem teve uma ligação incestuosa, e encara os fantasmas do passado – a mãe teria denunciado o pai como judeu aos nazistas – é de uma beleza dilacerada. Visconti usa César Franck na trilha – ‘Prelúdio, Coral e Fuga’ – para potencializar a envergadura trágica da Clitemnestra moderna, a mãe, uma pianisia interpretada por Marie Bell. Se eu paro para pensar, cenas inteiras desse filme me vêm à lembrança e uma delas é a do jardim, quando Claudia Cardinale é atraída para a estátua do pai, que será inaugurada, e um golpe de vento arranca o lençol que a cobre. É um p… filme e Volterra, cidade que está sendo consumida pela erosão – como Jean Sorel explica à irmã na ficção -, fornece o cenário perfeito para essa história de aristocratas que carregam a própria destruição. Visconti filmou em preto e branco e ‘Freud’, de John Huston, também é em PB. Na época, o filme ficou famoso porque Huston chamou Jean-Paul Sartre para escrever o roteiro e Sartre escreveu um tão volumoso que era infilmável (daria umas dez horas, segundo o cineasta). Muita gente acha que Huston, ao reduzir o roteiro, terminou fazendo uma versão um tanto esquemática, mas até onde me lembro o filme é muito forte, com cenas fascinantes de sonhos. Seu efeito na carreira do grande diretor não poderia ter sido mais ‘terapêutico’. Como se estivesse liberado pela psicanálise, Huston fez depois alguns de seus maiores filmes, alguns de meus favoritos, pelo menos,como ‘A Noite do Iguana’, baseado em Tennessee Williams, e ‘Os Pecados de Todos Nós’, adaptado de Carson McCullers, em ambos assumindo o desafio de falar sobre aspectos mais sombrios da natureza, leia-se da sexualidade, humana. ‘Freud’ e ‘Vagas Estrelas’ são dois filmes ao quais voltarei, com certeza. Montgomery Clift faz o jovem dr. Sigmund, Susan Kohner é sua mulher e Susannah York e David McCallum fazem pacientes, aqueles casos sobre os quais Freud erigiu suas teorias. Anos mais tarde, Huston escolheu Montgomery Clift para o papel de marido de Elizabeth Taylor em ‘Os Pecados de Todos Nós’, mas o ator morreu e foi substituído por Marlon Brando, cujo monólogo na sala de aula, quando ele desvenda seu homossexualismo para os alunos da academia militar, é um dos pontos altos não só da carreira de Brando como da representação no cinema. Montgomery Clift era outro grande ator, mas não conseguiria, pela autocomiseração – ele fazia na vida o gênero gay torturado, sofredor -, criar a cena com a intensidade de Brando, mas essa é outra história.

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