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Luiz Carlos Merten

09 Julho 2007 | 18h51

Admito que ando submetendo vocês a duras provas. Fico misturando assuntos, num tom excessivamente coloquial, até para fugir à camisa de-força do texto de jornal. Alguém já me reclamou dos textos longos. Pediu que eu abrisse parágrafos. Em vez de parágrafos, tenho aberto outros posts, mas a miscelânea continua. Enfim… Já falei aqui do ciclo sobre Totò que começa amanhã no Centro Cultural São Paulo. Foi daqueles posts malditos. Nãso originou nenhum comentário. Caramba! Ninguém tem nada a dizer sobre Totò, nem sobre os filmes do Monicelli e do Pasolini? Caramba, de novo! Mas amanhã, deixem-me antecipar, começa outro ciclo importante na Sala Cinemateca. Chama-se Versalhes – Da Monarquia à Revolução, com filmes que, situados no célebre palácio francês, cobrem o apogeu da realeza da França e a sua derrocada na revolução de 1789, que passou o pescoço de todo mundo (ou quase…) pelo fio da guilhotina. O ciclo traz dois filmes em que vocês, tenho certeza, pensaram ao ler qual era o assunto do post – Casanova e a Revolução, de Ettore Scola, e Maria Antonieta, de Sofia Coppola. Acho o segundo bonito, mas o primeiro… Com O Baile e A Viagem do Capitão Tornado, é um dos filmes que me convencem que Scola é (ou foi) gênio. Mas o ciclo traz também obras mais raras, que eu acho que vale conhecer. Não estou pensando na outra Maria Antonieta, a de Jean Dellanoy, com Michèle Morgan, que ele fez em 1956, um ano antes de O Corcunda de Notre Dame – e a adaptação do romance de Victor Hugo, com Anthony Quinn e Gina Lollobrigida, é… Qual seria o melhor adjetivo? Atroz? Penso, isso sim, em Se Versalhes Falasse, de Sacha Guitry, e Que a Festa Comece, de Bertrand Tavernier. Guitry morreu em 1957, quatro anos depois de contar sua história picante sobre os bastidores de Versalhes. Ele ainda teve tempo de fazer mais quatro filmes, incluindo um Napoleão e outro Se Paris nos Tivesse Contado. Era um monumento da cultura francesa. Até a nouvelle vague reconhecia seu gênio. Truffaut era o primeiro a rebater a acusação que muitas vezes foi feita a Guitry, a de que seu cinema seria, basicamente, teatro filmado. Não com seu domínio da câmera e dos atores, não com a fina ironia dos roteiros que ele próprio escrevia. Tavernier, grande crítico – sua História do Cinema Americano, em parceria com Jean-Pierre Corsodon, foi escrita originalmente nos anos 50 e atualizada nos 70; é maravilhosa –, virou um diretor não apenas hábil, mas atraído pela diversidade. Fez filmes de vários gênereos e um dos melhores, pela riqueza de detalhes, é Que la Fête Comence, com Philippe Noiret e Jean Rochefort, sobre Versalhes na época da Regência de Luís XIV. Não me lembro a data, mas A Festa é dos anos 70. Em 1984 – desse, tenho certeza da data –, Tavernier fez o impressionista Un Dimanche à la Campagne, lançado no Brasil como Um Sonho de Domingo. Era um sonho de cinema, um dos filmes mais bonitos, visualmente, que já vi. E nostálgico! Se Versalhes nos contasse, talvez dissesse que Tavernier fez o mais belo filme (um dos mais belos, com certeza) sobre Versalhes. Belo e lúcido – sua festa termina com uma revolta de camponeses que antecipa 1789.