Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Vermelho como o Céu

Cultura

Luiz Carlos Merten

23 Abril 2007 | 17h34

RECIFE – Detesto quando me acontece isto. Estava salvando um post quando resolvi pesquisar um título e perdi o texto integral. Que m… Vamos de novo. Fui ver ontem Vermelho como o Céu, no CineSesc. Cheguei e, como sempre, fui acolhido com muito carinho pelo pessoal do cinema (leia-se pela Simone…) e ela me contou da emoção que o filme do Cristiano Bortone vem provocando no público. Houve sessões em que as pessoas aplaudiram espontaneamente, no final. Gente que sai chorando da sala virou a regra. Não creio que lágrimas sejam, em si mesmas, um critério de avaliação estética, mas eu próprio choro no cinema e não vejo mal nenhum em que as pessoas liberem suas emoções. Isto posto, quero dizer que não chorei em Vermelho como o Céu. Também não estou convencido da excelência do filme. A história é a deste menino que sofre um acidente e fica cego. Como a lei italiana não lhe permite cursar escolas ditas normais, ele é enviado para um instituto especializado, cujo diretor é um padre, ele próprio deficiente visual. Talvez por saber como a vida é dura para os deficientes, o diretor reprime as manifestações mais imaginativas dos alunos e tenta prepará-los para atividades práticas limitadas, mas que ele acredita que serão aquelas que os garotos terão condições de desenvolver. O menino, nosso herói, revela-se muito habilidoso na arte de contar histórias pelo som. Ganha apoio de um professor, mobiliza os colegas, em breve ele está ameaçando o sistema montado no instituto, ou assim pensa o diretor, que o expulsa, mas… Não vou contar, para não tirar o impacto de quem não viu, mas não creio que esteja estragando a surpresa, se fizer duas ou três observações. Na primeira vez em que o garoto testa sua habilidade, construindo sua, digamos, visão do mundo por meio do som – estamos falando de sentidos -, o diretor parece que não acredita muito na capacidade de entendimento do público e fica traduzindo o que o espectador ouve. Vento, chuva. Ouve-se o som e entram as imagens correspondentes. Árvores agitadas ao vento, gotas d’água que se tornam cada vez mais volumosas. Isso vai contra o discurso do próprio filme quando, no desfecho, o padre bonzinho organiza um espetáculo de fim de ano e pede aos pais que coloquem vendas sobre os olhos, para que eles fiquem na mesma situação dos filhos que estão atuando no palco. Também me bateu um desconforto no desfecho, quando um movimento popular leva à destituição do diretor. Conscientemente, ou não, me pareceu que Cristiano Bortone estava retomando uma discussão dos anos 70, época em que se passa seu filme e que foi marcada pelo apogeu do cinema político italiano, que pudemos rever na Mostra do ano passado. Aquele cinema era revolucionário ou reformista? A destituição do diretor não é um ato reformista? Elimina-se o vilão, mas não se resolve o problema estrutural. Mas aí, é verdade, entraram dois letreiros. Um informou que, na suíte do movimento, o governo italiano baixou uma lei de integração de crianças deficientes à rede pública. E outro, segundo o qual o menino, nosso herói, cresceu para se tornar um dos maiores técnicos de som do cinema italiano. Achei bonita a homenagem, mas não fiquei muito convencido da alta qualidade do filme. Acho que faltou rigor a Bortone, uma conceituação mais clara, alguma coisa assim. De qualquer maneira, achei interessante ver que o cinema italiano atual esteja tão interessado em falar da infância carente, seja ela deficiente ou não. Kim Rossi Stuart, como ator e diretor, em Anche Libero Va Bene, e Gianni Amelio, com Kim como ator, em A Chave da Casa, trataram com sensibilidade do assunto. Viajando um pouco, me lembrei de um clássico esquecido do cinema italiano nos anos 50, Amigos do Peito, de Franco Rossi, sobre a amizade de dois garotos separados pelo mundo, a família, o crescimento. A crítica Pauline Kael, que amava o filme de Rossi, sempre lamentou que Amigos do Peito tenha ido para o gueto, virando cult de platéias homossexuais, embora não tenha nada a ver. Viajando mais um pouco me lembrei do garoto de Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore, tomando lições de vida e de cinema com o operador Philippe Noiret. E me lembrei mais das crianças sofredoras de Luigi Comencini, que morreu há pouco. Me lembrei de Enzo Bartoni, apertando a mão do pai no desfecho genial de Ladrões de Bicicletas, de Vittorio De Sica. Acho que toda cinematografia tem uma maneira peculiar de olhar suas crianças, mas a italiana leva a palma. E chega, que o post está ficando enorme e eu preciso ir para o cinema. Afinal, estou aqui no Recife para o festival que começa daqui a pouco.