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Luiz Carlos Merten

15 Outubro 2006 | 13h47

Já vi duas vezes o filme, em Cannes e no Festival do Rio, mas imagino que devia haver gente pelo ladrão para assistir ao novo Ken Loach, The Wind That Shakes the Barley, agora de manhã, na Mostra. Loach usa um episódio da guerra na Irlanda, nos anos 20, para discutir a divisão da esquerda (tema que sempre lhe foi caro) e criticar o papel dos ocupantes ingleses naquele episódio, coisa que lhe interessa porque permite fazer uma ponte com o que ocorre hoje no Iraque, a partir do apoio incondicional de Tony Blair à política antiterror do presidente George W. Bush. É curioso, mas Blair esteve em dois filmes no Festival do Rio e eu gostaria muito que os dois estivessem na Mostra, embora tenha procurado o segundo, sem encontrá-lo, pelo título original ou pelo traduzido. No de Loach, ele aparece sem que uma só referência lhe seja feita, até porque a ação é muito anterior. No segundo, The Queen (A Rainha), de Stephen Frears, é personagem importante, mais até do que a Elizabeth II interpretada por Helen Mirren. Gostei dos dois, mas o de Loach é melhor. No ano passado, em Cannes, conversando com Michael Haneke, o diretor de Caché, ouvi dele, num pequeno grupo de jornalistas, que o realismo não existe, por mais realistas que pareçam certos filmes. A realidade na tela é sempre apenas uma fatia, filtrada pelo olhar do diretor, que está interferindo sobre ela e, portanto, não é mais o ‘real’, mas uma coisa recriada, interpretada (o que vale também para o documentário). Até comentei com o Carlos Eduardo, de Londrina, quando saímos de The Wind That Shakes the Barley, em Cannes – quem diz que o realismo morreu se esqueceu de avisar o Loach. O filme dele recebeu a Palma de Ouroe o júri era presidido por Wong Kar-wai, autor que pratica um cinema elíptico e esteticista, que ninguém, em sã consciência, chamaria de ‘realista’ (exceto para dizer que a verdade, o real, podem se fazer presentes por meio do artifício mais delirante, o que Baz Luhrmann não se cansa de dizer, traçando um arco que vai até o cinema ensaístico de Abbas Kiariostami, mas esta é outra história). A verdade, olhaí a palavra, é que o filme do Loach foi o primeiro da competição em Cannes. Na hora da premiação, o júri voltou a ele porque o tempo todo The Wind That Shakes the Barley ficara como uma espécie de reserva – artística, política, humanista e moral. É um filmaço do último grande diretor de esquerda. Esses moderninhos todos, que têm blogs e colunas em jornais, ficam nos lembrando que isso é obsoleto neste admirável (para eles) mundo globalizado. Ainda bem que existe Ken Loach. Ainda bem que existiu um júri como o que teve coragem de premiá-lo, em Cannes.