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Cultura » Veneza, ano 75

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Luiz Carlos Merten

29 Agosto 2007 | 09h17

Luiz Zanin Oricchio está em Veneza, onde começa hoje o 75º Festival de Cinema – na verdade, a Mostra de Veneza, já que o festival, ligado à Biennale, na verdade é uma ‘mostra de arte cinematográfica’. Na reportagem de capa de hoje do Caderno 2, Zanin conta que até os italianos estão escandalizados com o fato de que Veneza vai falar inglês como nunca, em seus 75 anos. Os filmes americanos e ingleses dominam a seleção, em todas as seções da mostra. Vocês poderão acompanhar a cobertura dele pelo jornal e pelo blog, que o Zanin também tem. Veneza não está falando inglês por acaso. É uma questão de sobrevivência, que Cannes já encarou há muito tempo. A mundanidade faz parte de Cannes, sempre fez, mas dentro do festival todo mundo sabe que há o nicho intocável do cinema de autor (e de arte). Veneza, se não abrir as portas, mesmo que lateralmente, para Hollywood, vai perder espaço na mídia para o Festival de Roma, cuja ênfase está no espetáculo, nas celebridades. Mas Veneza, o núcleo da mostra, precisa permanecer intocado. No ano passado, o júri presidido por Catherine Deneuve fez a coisa certa, premiando Jia Zhang-Ke (Em Busca da Vida) e Alain Resnais (Medos Privados em Lugares Públicos). Fui a Veneza durante seis anos ou sete seguidos, a partir de 1991. No Lido, fiz minhas primeiras entrevistas com Zhang Yimou (que preside o júri deste ano), Claude Chabrol, Robert Altman, Krzysztof Kieslowski, Manoel de Oliveira, Suso Cecchi d’Amico (a roteirista cúmplice de Visconti), Ermanno Olmi, James Ivory, Martin Scorsese, Gus Van Sant, Derek Jarman, Nikita Mikhalkov, Tsai Ming-liang, Tran Anh Hung, Milcho Manchevski, uma bela seleção, não? Lembro até hoje da cara de espanto do Manchevski quando disse para ele que ia ganhar o Leão de Ouro por Macedônia. Também apostei com colegas brasileiros que Takeshi Kitano ia ganhar com Hana-Bi, Fogos de Artifício (e eu também me encontrei, num grupo, com o Beat Kitano, mas não sei se posso chamar aquilo de entrevista porque o cara só olhava para a gente e quando respondia, pelo intérprete, era um monossílabo – sim, não, talvez.) Também entrevistei Jack Nicholson – e o que deveria ser uma entrevista de grupo, com três pessoas, virou uma exclusiva porque, até hoje não sei o motivo, os outros dois jornalistas não apareceram e eu fiquei sozinho com o grande homem. Minha mais bela lembrança da Mostra de Veneza não está ligada ao Lido, onde ocorre o evento, mas à Praça de São Marcos. Não me lembro agora o ano, teria de fazer uma pesquisa, mas a direção da mostra transferiu a premiação do Lido para a Piazza, para ser transmitida ao vivo pela TV. Trabalho como um cão nesses festivais, vejo todos os filmes que posso, faço entrevistas, escrevo um monte de matérias – naquele tempo não tinha o blog –, mas se há uma coisa que eu não deixo é de vagabundear, nestes lugares. Toda noite, após a última sessão, pegava o vaporeto e ia caminhar na Piazza e seus arredores, voltando de madrugada para o hotel, para dormir duas ou três horas, antes de recomeçar a maratona. Naquela noite, assisti ao ensaio do show, cujo número apoteótico era a recriação do bailado da boneca mecânica de Casanova de Fellini. Encostrei-me numa daquelas colunas e fiquei olhando. Tenho momentos assim para contar de Cannes, de Berlim, do Festival do Rio… Tenho lá meus problemas, como todo mundo – de perto ninguém é normal –, mas tenho sido privilegiado nesta profissão.