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Cultura » Vencedores e esquecidos da Palma de Ouro

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Luiz Carlos Merten

05 Junho 2007 | 09h22

Havia comprado, em Cannes, a edição especial, fora de série, com que a revista Positif, rival de Cahiers du Cinéma, comemorou os 60 anos do maior festival de cinema do mundo. A chamada de capa prometia um enfoque original – 60 Ans de Cannes dans Positif, Palmes d’Or et Oubliés du Palmarés. Ou seja, 60 anos de Cannes em Positif. Palmas de Ouro e esquecidos na premiação. A revista inicia sua listagem em 1952. Othello, de Orson Welles, ganhou o Grand Prix (ainda não era Palma). O esquecido foi Vincente Minnelli, o pai de Liza, que concorria com Sinfonia de Paris, musical cuja suíte final, An American in Paris, é – como dizem os franceses – um dos sommets do gênero. No ano seguinte, O Salário do Medo, de Henri-Georges Clouzot, foi o vencedor e o esquecido, Jacques Tati, um dos maiores Cõmicos do cinema, com as suas Férias de M. Hulot. Em 1960, Federeico Fellini levou a Palma, com A Doce Vida. O esquecido foi Jacques Becker, com o admirável Le Trou, que passou no Brasil como A Um Passo da Liberdade. Em 1961, Luis Buñuel ganhou a Palma com Viridiana; o esquecido foi o greco-francês Niko Papatakis, com Les Abysses. Em 1965, Palma de Ouro foi para A Bossa da Conquista… e Como Conseguí-la, de Richard Lester. Ausência no Palmarès – a de Os Sem-Esperança, de Miklos Janczo. Em 1967, Positif nem lembra o vencedor. Vai logo para o esquecido – Glauber Rocha, por Terra em Transe. Em 1970, o esquecido foi Claude Sautet, com As Coisas da Vida. Em 1971, Palma para O Mensageiro, de Joseph Losey. Esquecido – Raphael , ou Le Débauché, de Michel Deville. Em 1972, Palma de Ouro para O Caso Mattei, de Francesco Rosi (dividida com A Classe Operária Vai para o Paraíso, mas isso a revista não lembra). Esquecido – Jeremiah Johnson, o genial western de Sydney Pollack com Robert Redford, que passou no Brasil como Mais Forte Que a Vingança. Em 1973, Positif lembra só o vencedor – O Espantalho, de Jerry Schatzberg. Em 1974, o vencedor (A Conversação, de Francis Ford Coppola) e o esquecido (Renegados até à Última Rajada,o Bonnie & Clyde de Robert Altman). Aliás, neste ano Positif lembra dois esquecidos – o outro foi o suntuoso Stavisky, de Alain Resnais. Em 1977, um grande filme italiano (Pai Patrão, dos irmãos Taviani) levou a Palma, mas outro grande filme italiano foi esquecido (Um Dia Muito Particular, de Ettore Scola). Em 1980, Palma de Ouro foi para Kagemusha, de Akira Kurosawa (dividida com All That Jazz, de Bob Fosse) O esquecido naquele ano foi um grande filme filipino de Lino Brocka, Jaguar. Em 1981, uma Palma política para O Homem de Ferro, de Andrzej Wajada, em detrimento de O Portal do Paraíso, de Michael Cimino. A lista é longa. Em 1983, a revista insinua que o júri premiou o japonês errado – A Balada de Narayama, de Shoei Imamura, em vez de Furyo – Em Nome da Honra, de Nagisa Oshima, embora também pudesse ser O Sul, de Victor Erice. Em 1989, Wim Wenders viu o futuro do cinema no vídeo e premiou sexo, mentiras e videotape, de Steven Soderbergh, esquecendo-se do poderoso Spike Lee de Faça a Coisa Certa. Em 1994, Palma para Tempo de Violência (Pulp Fiction), de Quentin Tarantino. Esquecido – Exotica, de Atom Egoyan. Em 1998, Palma para A Eternidade e Um Dia, de Theo Angelopoulos, mas por que não dois orientais – As Flores de Shangai, de Hou Hsiao-hsien, e O Buraco, de Tsai Ming-liang? Em 2001, Palma para O Quarto do Filho, de Nanni Moreetti. Esquecido – Manoel de Oliveira, com seu genial Je Rentre à la Maison (Quero Ir para Casa). Em 2002, vencedor – O Pianista, de Roman Polanski. Esquecido – Marco Bellocchio, com outro filme genial, O Sorriso de Minha Mãe. No ano passado, Palma para Ventos da Liberdade, de Ken Loach. Esquecido – Guillermo Del Toro, por O Labirinto do Fauno, mas poderia ser também o turco Nuri Bile Ceylan, por les Climats. Uma contribuição minha – em 2007, Palma para Quatro Meses, Três Semanas e Dois Dias, do romeno Cristian Mungiu. Esquecido – o turco/alemão Fatih Akin, por The Edge of Heaven. Achei muito interessante a iniciativa de Positif. Permite relativizar o histórico de premiações dos grandes festivais. Não se trata de desautorizar quem ganhou, como durante anos se fez no País com Anselmo Duarte, o único brasileiro a vencer a Palma, por O Pagador de Promessas. O nome dos vencedores faz parte da lenda do festival. O de Anselmo era o único brasileiro escrito na pasta que Cannes distribuiu este ano à imprensa. Desautorizar? Não. Mas é bom lembrar que grandes filmes que não foram premiados também fazem parte da lenda, e do nosso imaginário. Já pensaram se fôssemos fazer isso com o Oscar? Como seria grande – maior – a lista dos esquecidos?