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Luiz Carlos Merten

03 Setembro 2009 | 19h18

Fui ver ‘Salve Geral’ sem saber exatamente o que esperar do novo filme de Sérgio Rezende. É um diretor que, às vezes, me desconcerta. Gosto dos filmes dele que fazem menos sucesso – ‘Quase nada’ e aquele com Juca de Oliveira como velho palhaço. Os filmes de grande espetáculo do Sérgio Rezende em geral não me convencem –’Lamarca’, ‘Canudos’, ‘Mauá’. Mas ‘Zuzu Angel’ me tocou e eu acho que a cena fictícia do encontro de Patricia Pillar com o pai de Lamarca, uma liberdade poética do diretor, é de uma beleza que me cortou a respiração. Algo se passa na tela, naquele momento único. Imagino que o desafio de Sérgio e sua roteirista, Patricia Andrade, fosse justamente como introduzir o espectador neste dia terrível em que o PCC parou São Paulo. Posso não ser fã incondicional do diretor, mas ele tem uma pegada forte e era possível apostar na intensidade de suas cenas ‘violentas’, ‘de ação’. As cenas de presídio, os atentados, tudo isso ele sabe fazer. Poderia até errar a mão, mas sabe. O desafio é como nos jogar – nós, o público – dentro disso. E como encerrar um filme desses. Sérgio e Patrícia recorreram à chave da ficção e fizeram de Andréa Beltrão essa mãe empobrecida, cujo filho vai preso. Ela própria, professora de piano, retoma a carreira de advogada, ligando-se à ruiva, uma advogada de porta de cadeia, amante de criminosos e que age como ligação do presídio com o mundo aqui fora. Denise Weinberg tem physique du rôle e temperamento para fazer o papel, mas Andréa é soberana. Numa cena, ela conversa com op filho. Ele lamenta que sua vida tenha sofrido um cataclismo durante apenas 15 segundos, por meio daquele gesto impulsivo que terminou na morte de uma garota. A mãe retruca que foi a garota que morreu. Uma nova discussãop sobre o definitivo e o provisório truffautiano? Não demora muito e Andréa e o filho, ele dentro, ela fora da cadeia, estão enredados com o PCC. A periferia e a classe média, tudo a mesma coisa, apesar da oposição gritante. Sérgio Rezende vai provocar polêmica. O mínimo de que ele poderá ser acusado é de ingenuidade, ou de tomar o partido do crime. O companheiro de cela do garoto protagonista é este jovem que, numa cena chave, identifica a ação do PCC como ‘revolucionária’, antes de tombar sob as balas da polícia. A autoridade é corrupta e/ou oportunista, o crime pelo menos tem uma ‘ética’ – já era o tema de Hector Babenco em ‘Carandiru’. Aliás, venho pensando muito nos dois filmes. Não sou, aqui no blog, de fazer política partidária, embora acredite que termino sempre deixando claro sobre quem faz minha cabeça. O único partido citado em ‘Salve Geral’ é o PCC, mas não consigo deixar de pensar que ambos os filmes traçam um retrato bastante sinistro da política carcerária do governo. No ‘Salve Geral’, é o PSDB, cujo secretário de Segurança é um daqueles personagens que faz lembrar a letra do samba de Chico (‘Chama o ladrão!’). Aliás, toda a cúpula do presídio – o diretor, o delegado – é repulsiva na ficção de Sérgio Rezende. Há um divórcio entre o público e o privado e o que aparentam ser não é nem de longe o que são (e fazem). Os criminosos não são idealizados, mas são mais… Como direi? Íntegros? ‘Salve Geral’ vai dar o que falar. Anotem. O filme estreia em 2 de outubro. Antes disso, ainda não sei se passa no Festival do Rio, como ‘Tropa de Elite’, ou se vai direto para os cinemas.

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