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Velhos ressentimentos

Luiz Carlos Merten

12 Novembro 2008 | 15h49

Ainda não tive tempo de olhar meus e-mails para ver se existem comentários de vocês aos posts de ontem. Minha vida está uma loucura. Já disse que minha cirurgia ficou para amanhã e a conseqüência é que estou fazendo 1001 entrevistas de filmes que estréiam por agora (e deixando os textos prontos). Fiz ontem ótimas entrevistas com Selton Mello e Guel Arraes e hoje repeti a dose com Cláudio Torres e Wagner Moura, todos eles de filmes que estréiam neste fim de semana e no próximo (‘Romance’, ‘Feliz Natal’, ‘A Mulher do Meu Amigo’ etc). Entrevistei também a idealizadora do projeto Distribuição Criativa, Isabelle Cabral, e a diretora mexicana Patricia Riggen, de ‘Sob a Mesma Lua’, que estréia sexta-feira. Achei o filme bem simpático e a cena, logo no começo, em que o apresentador de rádio chama o governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, de ‘cabrón’ é um regalo. Fiz minhas restrições aqui mesmo no blog a ‘Feliz Natal’ e ‘A Mulher…’, o Selton e o Cláudio sabem disso e o papo com eles foi supertranqüilo. Minha experiência me diz que só fica estressado o diretor que sabe que fez uma m… e aí fica ouvindo os coleguinhas elogiarem e… Esse não agüenta quando alguém lembra a porcaria que fez. Mas não era sobre isso que queria falar, embora talvez tenha a ver. Claude Lelouch foi matéria de capa na edição de ontem do Segundo Caderno acho que de ‘O Globo’. Entrevistei Lelouch no ano passado, quando foi homenageado pela Mostra e, dando o devido desconto ao Leon (Cakoff), que o chamou de mestre e disse que era um grande cineasta, até gostei de ‘Crimes de Autor’, que me pareceu bem legal. Mas não tenho paciência para o ressentimento do Lelouch contra a nouvelle vague que, segundo ele, só fez mal ao cinema francês. Lelouch ganhou o Oscar, a Palma de Ouro, assinou grandes êxitos de público, mas nada disso substitui, em seu coraçãozinho magoado, a hostilidade de ‘Cahiers du Cinéma’, a revista-porta-voz da nouvelle vague, que sempre o tratou como profissional do amadorismo. Cada vez me convenço mais de que Orson Welles era mesmo gênio. Ele não inventou a psicanálise, mas sua sacada em ‘Cidadão Kane’ – o personagem virou aquele monstro porque tiraram seu trenó, Rosebud, quando era menino – marca toda a história do cinema. Até Oliver Stone, em ‘W’, pega carona. O atual presidente dos EUA, que já vai tarde, virou essa coisa só porque seu pai, o velho George, não deixou que ele realizasse seu sonho de ter um time de beisebol, é a tese de Stone. Arre, ressentimento. Para completar, no Amazonas – afinal, ele veio ao Brasil para participar do festival que termina amanhã –, Lelouch tascou a frase de que Woody Allen é o maior diretor do mundo. O quê? Ele pode até ter sido, mas faz tempo, na época de ‘Crimes e Pecados’, ‘Zelig’ e ‘A Rosa Púrpura do Cairo’. Hoje, antes de me relatarem o que disse Lelouch, conversava com Antônio Gonçalves Filho sobre ‘Vicky Cristina Barcelona’, que me pareceu simpático, divertido, e até comentamos que essa coisa de o Woody Allen fazer um filme por ano, todos os anos – tão esperado quanto o peru do Dia de Ação de Graças –, está acabando com ele. Alguns desses filmes até que são mais interessantes – ‘Match Point’ é o melhor –, mas um período sabático não seria nada mau. Woody Allen podia parar uns dois, três anos e voltar com um grande filme, como os antigos. O problema é – quem garante? Ele pode voltar com mais desses médios e aí, sim, teria de encarar o problema. Já ouço alguém aí dizendo que é melhor um filme médio do Woody Allen do que um grande de… Quem? Ridley Scott? Afinal, o ‘Caderno 2’ de hoje publica a entrevista que Flávia Guerra fez em Londres com Leonardo DiCaprio e eu aproveito para fazer a crítica de ‘Rede de Mentiras’, que estréia dia 28. Desculpem, mas um filme médio do Woody Allen, para mim, é médio, tout court.