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Luiz Carlos Merten

16 Maio 2012 | 19h47

CANNES – Vocês vão achar que eu deliro, mas a melhor coisa que vi nestre primeiro dias do 65.º festival – o maior evento de cinema do mundo – foi a animação ‘Madagascar 3’,. com uma nova personagem, uma policial francesa, cuja meta na vida é caçar um leão e que, por isso mesmo, move implacável perseguição a nossos conhecidos dos filmes anteriores. Diverti-me bastante e isso é bem mais do que posso dizer dos filmes que iniciaram a compertição. ‘Cahiers du Cinéma’ amou o novo Wes Anderson, mas eu não fiquei muito convencido com ‘Moonrise Kingdom’, que conta a história de amor de dois pré-adolescentes de 12 anos nos EUA de 1965. Eles fogem e são perseguidos pelo xerife, pela família e por uma assistente social (o garoto é órfão). O filme é sob medida para justificar a fama de excêntrico do diretor Anderson. Tem um visuial interessante, como se fosse uma versão live action do longa anterior do cineasta, a animação ‘O Incrível sr. Raposo’, era o incrível, não?, mas não vai muito além disso. Acho potencioalmente interessante a ideia de Anderson de reorganizar a vida, e o mundo, em busca de uma perfeição que ele sabe ser impossível, mas, por mais válido que seja o esforço, o fracasso é inevitável, como diria John Hustron. O delegado geral Thierry Frémaux, que assina a curadoria da seleção oficial – competição mais Un Certain Regard – deu uma entrevista dizendo que não sofre nenhuma pressão nem interferência, mas escolher os filmes para um grande festival, como Cannes, significa abrir mão dos próprios gostos. Ele seleciona o que é importante para o festival, não necessariamente aquilo que prefere, mas eu me pergunto o que há de tão importante em ‘Moonrise Kingdom’, que não consegui ver. O concorrente da noite, a que acabo de assistir – já é passado da meia-noite na Côte d’Azur -, pode também não ser bom, mas pelo menos ‘Baad el Mawkeaa’, Depois da Batalha, de Yousry Nasrallah, é a primeira ficção egípcia após o levante popular que derrubou a ditadura de Hosni Mubarak, em fevereiro dso ano passado. Há, por assim dizer, uma urgência na história da jornalista que se envolve com um homem do povo, manipulado por um político corrupto e o problema é que o filme procura dar um testemunho amplo – sobre a luta do povo, a condição das mulheres, a corrupção e a miséria -, tudo isso sem muito rigor, ou sem rigor nenhum. Mas é curioso que, após o irrealismo de ‘Moonrise Kingdom’, a competição já tenha entrado num tipo de realismo epidérmico, que tenta colocar na tela o que, no fundo, o público já viu na TV, aquela movimentação na praça central do Cairo. Preocupado em marcar entrevistas e assistir ao debate do júri, perdi o documentário sobre Roman Polanski, que pretendo ver amanhãs. Mas vi o de Woody Allen, de Robert B. Weide, que é, digamos, agradável, mas em momento algum tenta dar conta da personalidade do autor. Por experiência própria, sei que Woody não foge a sua contradições e encara responder a perguntas que talvez sejam constrangedoras – eu, no ano passado, fiz questão de dizer que ele era muito maior artista na época de Mia Farrow e ele aceitou discutir o asssunto numa boa. Já é tarde, vou dormir. Amanhã é outro dia e a quinta começa com Jacques Audiard e Marion Cotillard, ‘De Rouille et d’Os’. Tomara que o segundo dia seja melhor que o primeiro. Só não resisto a acrescentar que ‘Cahiers’ talvez tenha acabado com as chances de David Cronenberg na Palma de Ouro. A revista elege ‘Cosmópolis’ como favorito. ‘Cashiers’ tewm sido o maior pé-frio. Tudo o que a revista elege vai pro brejo. Estou nos cascos para ver o novo Cronenberg. Espero que o filme seja bom e que a preferência de ‘Cahiers’ não o prejudique, embora ainda seja cedo demais para prognósticos.