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Luiz Carlos Merten

17 Dezembro 2011 | 09h14

Ando exasperado comigo mesmo porque, nos últimos dias, tem ocorrido tanta coisa que ando afastado do blog. O episódio da mochila trocada, a chuvarada que transformou o Rio no caos na noite do tapete vermelho de Tom Cruise, o atraso do próprio Tom, que o impediu de cumprir o protocolo do red carpet, falando com a imprensa escrita, como prometido – isso me obrigou a fazer minha capa com as informações da coletiva de Dubai e o que consegui ouvir, sorry dizer, esticando o ouvido para as entrevistas de TV, muito banais para o que gostaria de ter perguntado, sobre suas escolhas de direção na série ‘Missão Imposspível’, que adoro. Enfim, foi tudo estressante e, ao regressar, ainda tinha o problema da minha filha, que fraturou a costela. Com tudo isso, e as matérias, e as entrevistas, e os filmes para ver, o blog foi sendo relegado . No último post, havia prometido a mim mesmo comentar as escolhas da APCA, Associação Paulista de Críticos de Arte, na categoria de cinema. Ocorreu que Flávia Guerra me mostrou um comentário do Miguel Barbieri, da ‘Vejinha’, no Facebook, reclamando das escolhas deste ano. Já fui presidente da APCA e me preocupa o esvaziamento progressivo que sinto na entidade, pelo menos na área que me toca, e que pode ter a ver com o surgimento dessa nova associação de críticos ligada à Fipresci. Não tenho maior interesse – não tenho nenhum interesse – em me filiar e os equívocos do debate promovido pela associação em Gramado, para falar da proibição do ‘Filme Sérvio’, somente fortaleceram meu desinteresse. Mas o Miguel diz algumas coisas interessantes, não o fato de achar ‘Bróder’ horroroso e coisas quetais. Isso é opinião dele, discutível, como a minha também é. Quando cheguei, atrasado – éramos cinco, apenas, mais o Orlando Margarido, que votou por carta, devidamente registrada e reconhecida -, um quadro já se havia esboçado e eu tratei de interferir para garantir que algumas escolhas minhas fossem levadas em conta. Nenhum dos prêmios conferidos me parece indigno da tradição da APCA, mas confesso que o prêmio especial para os garotos de Fortaleza – o coletivo Alumbramento -, o de ator para o Bezerra de ‘O Transeunte’ e o de roteiro para Karine Telles, por ‘Riscado’, são aqueles que têm a minha cara e eu gostaria, por exemplo, que ‘Estrada para Ythaca’ tivesse ganhado mais (o melhor filme?). De volta ao Miguel, quero dizer que só reclamar não vale e eu teria apoiado com gosto o prêmio de atriz para Deborah Seccvo, por ‘Bruna Surfistinha’, apesar de gostar muito da Simone Spoladore de ‘Natimorto’ e ‘Elvis e Madona’. Sinto, sim, que há resistência do júri da APCA ao novo e que, na maioria dos casos, os colegas fogem do pop como vampiro da cruz, preferindo uma certa categoria de filme de ‘prestígio’. No caso de ‘Corumbiara’, do qual gostei muito em Gramado, fui convencido de que estreara, embora me parecesse que não. Até comentei, a título de brincadeira, que era a primeira vez, em décadas, que Eduardo Coutinho não levaria o prêmio e olhem que ‘As Canções’, que deve fechar um ciclo na obra dele – Coutinho está cansado de invadir a intimidade das pessoas -, é muito bonito. Resumindo, o que quero dizer é que a premiação não é decidida pela direção da entidade. Rubens Ewald Filho, vice-presidente, integrava o reduzido greupo do cinema e em momento algum Rubinho tentou impor suas preferências. Ou seja, os prêmios refletem o colegiado. Por exemplo, vou muito a teatro e já faz alguns anos que me pergunto de que planeta caíram as pessoas que votam, tão exdrúxulas me parecem as escolhas. Este ano, não vi o grande vencedor e parece que, excepcionalmente, foi um acerto do grupo (de votantes). Ouvi as melhores referências sobre o ‘Luiz Antônio/Gabriela’, da Cia. Mungunzá, espetáculo que perdi por falta de lugares. Cheguei a ir duas vezes (duas!) ao teatro da Rua Ana Cintra para ver se conseguia ingresso, mas não deu. Ou seja, Miguel, pára de ser turrão e vai votar no ano que vem.