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Luiz Carlos Merten

30 Outubro 2011 | 10h37

É curioso, mas me havia me esquecido completamente do prólogo de ‘Novecento’, o ‘1900 de Bernardo Bertolucci’. No meu imaginário, o filme começava com o Trovatore anunciando a morte de Verdi e os nascimentos de Alfredo e Olmo, e terminava com a caçada dos contadini a Atila e Regina. Mas há o prólogo – o dia do fim da guerra e da liberação da Itália, a morte do partigiano (per che?) e o início da caçada aos fascistas. Escrevi ontem que, após o sucesso de público e crítica de ‘Último Tango em Paris’, nenhum produtor seria louco de negar o que quer que fosse a Bertolucci. ‘Alberto Grimaldi Presenta…’  Depois de ver o filme, fiquei pensando. Independentemente das mudanças de quadro histórico – do ponto de vista geopolítico, um épico desses está na contramão do mundo global -, Bertolucci teria de mudar muita coisa em nome do politicamente correto, ou então teria problemas com as censuras de vários países. O velho Burt Lancaster introduzindo a mão da menina na braguilha, os meninos Olmo e Alfredo mostrando o pênis, o brutal Atilio matando o gato com a cabeçada, mesmo que o espectador seja poupado do detalhe da cena. Bertolucci seria acusado, no mínimo, de abuso infantil. Honestamente, não sei se gostei de rever ‘Novecento’. Foi bom, claro, mas eu tinha outro filme no meu imaginário. Foi uma espécie de desmistificação. Em 1976, quando o filme surgiu – Pier Paolo Pasolini morrera, ou fora assassinado, no ano anterior -, a Itália começava a mergulhar de novo no pesadelo da direita. O filme é uma celebração de esquerda. Camponeses, operários. O que Bertoluccoi queria, exatamente? Que o seu épico, com valor de advertência, exaltando o novo mundo após a derrota do nazi-fascismo na 2ª Guerra, tivesse valor de advertência. Se era isso, falhou, mas ‘Novecento’ tem muitas cenas lindas, grandiosas. Outras envelheceram terrivelmente. E o jovem Gérard Depardieu era um assombro. De tanto ver Depardieu perder a forma e virar Charles Laughton – mas ele continua sedutor, vide o filme de Jean Becker, ‘Minhas Tardes com Marguerite’, o ogro é maravilhoso – até esquecemos como ele foi belo, quando jovem. E era uma beleza interior. O sorriso do camponês, do representante das classes baixas. Um detalhe aparentemente secundário revela muito, para mim. Na cena em que vão juntos para a cama com a epilética, Depardieu e Robert De Niro ficam nus, mas só o primeiro faz o nu frontal, diante da câmera. Há um tabu com a nudez masculina, no cinema. Pergunto-me por que. O tamanho, talvez? Implico com ‘O Céu sobre os Ombros’, que ganhou o Festival de Brasília do ano passado e a Sílvia Cruz, da Vitrine, vai lançar, não sei se no dia 4 ou no 11. O filme tem aqueles personagens. O negão, desculpem-me pelo que não é racismo, o afro-brasileiro, aparece o tempo todo nu dentro da casa e o diretor e o ator fazem a maior ginástica para que sua genitália não apareça. A travesti, o corpo estranho, aparece em nu frontal. Os seinhos, são pequenos, o pintinho, que atrofiou, sei lá, pelo uso de hormônios. Aquilo produz um estranhamento e, ao mesmo tempo, não será uma concessão ao exotismo? Uma satisfação da curiosidade mórbida da plateia? Uma sacramentação do ‘diferente’?  É isso? E se o estado natural do outro é a nudez, por que, inversamente, ocultá-la? Provavelmente não captei a sutileza do filme, pois imagino que exista aí uma sutileza. Misturei alhos com bugalhos. Bertolucci me decepcionou? De certa forma, sim. Vou rever ‘O Céu sobre os Ombros’? Também sim. Vamos em frente, as Mostra continua.

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