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Validando os desvalidos

Luiz Carlos Merten

13 Novembro 2006 | 14h33

Mea culpa. Confesso que não botava muita fé em Canta Maria, que assinala o retorno de Francisco Ramalho Jr. à direção, exatamente 20 anos depois de Besame Mucho, que era, até então, seu último filme. No intervalo, Ramalho não ficou inativo e, pelo contrário, trabalhou muito como produtor associado de Hector Babenco, ajudando o cineasta a tocar grandes projetos (Brincando nos Campos do Senhor e Carandiru, por exemplo). Não conheço o romance Os Desvalidos, do escritor sergipano Francisco J.C. Dantas, mas imagino que, pela amostra, pode ser muito bom. Achei bonita essa história de triângulo amoroso contra o pano de fundo de um Nordeste em guerra, nos anos 30. Lampião enfrenta as volantes e, no fogo cruzado, desenvolve-se a relação intensa de Maria com o amansador de cavalos Filipe, assistida por Coriolano, que evolui de garoto a homem e sempre desejando essa mulher. No começo, estava achando o filme certinho demais, como se Ramalho tivesse se preparado tanto em termos de direção de arte, decupagem etc, que algo me parecia faltar. Um pouco mais de alma, talvez. Ou então era o linguajar dos atores, o sotaque nordestino do Marco Ricca, que me incomodava. Aquela coisa meio ‘bronca’, de falar para dentro. Quando me acostumei, achei o Ricca muito bom e viajei na história, pois acho que Ramalho experimentou, aqui, exatamente isso – o gosto de contar uma linda história de amor. Devo ser um romântico incorrigível (idiota?), mas gosto dessas histórias de amor que se constróem no tempo, de gente que atravessa uma vida para se descobrir e ser (ou tentar ser) feliz. É uma coisa que me toca. E o filme do Ramalho me tocou. Achei a ambientação rigorosa, gostei muito do José Wilker como Lampião, achei a Vanessa Giacomo boa na primeira parte e, talvez, um pouco forçada na segunda, como cangaceira, mas no cômputo geral ela, que ainda é tão jovem, me convenceu. Gostei, finalmente, do Edward Boggis, fechando o triângulo. Não é fácil fazer essa passagem, na tela, do garoto para o homem, chamando a mulher que ama de ‘tia’ e, mais tarde, reencontrando seu objeto de desejo. Existe algo aí de pele, uma emoção à flor da pele, e é assim que se chama o único filme do Ramalho que me interessara, adaptado da peça de Consuelo de Castro e vencedor de vários Kikitos em Gramado, nos anos 70. Chega. Vou parar por aqui, senão não terei mais nada para dizer quando o filme estrear, na sexta. Só mais uma coisa. Nas vezes em que entrevistei o Daniel de Oliveira, por Cazuza e Zuzu Angel, ele sempre me falou com muito carinho da cabloca dele, a Vanessa, com quem dividiu a cena na novela da Globo. Daniel faz uma ponta em Canta Maria. Bonitinha, coisa de homem apaixonado. E ah, sim, tem também a trilha, com as canções da Daniela Mercury.