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Luiz Carlos Merten

29 Agosto 2007 | 08h42

Voltávamos ontem da cabine de Disturbia (Paranóia), Alex Xavier e eu, no carro do jornal. Não sei que especialista estava analisando uma tendência do mercado – o subsídio que as montadoras dão aos bancos para diminuir os juros, sempre que querem liquidar com os carros encalhados em seus páteos. O tal especialista entusiasmou-se tanto com a análise que chegou à conclusão de que o juro baixo é bom (claro) porque ativa a economia e, neste caso específico, permitirá (ou permitiria) a muito mais gente adquirir carros. A pérola do pensamento dele é que São Paulo tem um déficit de, sei lá, 20/30% de carros. Talvez eles estejam mal distribuídos, mas para mim, pelo menos, o déficit parece o inverso, da malha viária urbana. Estão faltando ruas para acomodar todos os carros que São Paulo já tem. A administração não ajuda. Ontem, fiquei mais de meia-hora parado na Av. Paulista, sob a garoa, no fim da tarde, à espera do carro do jornal que não conseguia me apanhar porque – 1) a rua está em obras, o que já está reduzindo uma faixa nas laterais; 2) os ônibus, obviamente, formam um corredor compacto impedindo os carros de trafegarem mais próximos à calçada. Deve haver um jeito de facilitar a vida do contribuinte, mas quem se preocupa? Certamente não sou especialista de trânsito – mas às vezes tenho a impressão de que o pessoal da CET também não é. Nestas horas, tenho vontade de chamar o Leonardo Medeiros de Não por Acaso, do Philippe Barcinski. Claro, era uma ficção, mas LM sabia fazer o trânsito andar. Toda vez que desço a Rebouças para entrar na rua em que moro, em Pinheiros, preciso me besliscar. Passa a Henrique Schauman e descendo rumo à Faria Lima, existem uma-duas-três-quatro ruas que vêm e nenhuma que entra para a Rua dos Pinheiros, que eu preciso tomar. A primeira que entra nem é uma rua – é uma passagem e, ultimamente, anda meio emperrada por causa da obra do metrô. Vai ficar ótimo quando o metrô estiver funcionando, mas o problema é que a obra é demorada e até lá, haja paciência. Haja sorte, pois já houve desabamento do metrô que matou gente. Ah, mas a gente esquece. Nunca vi um planejamento de trânsito desses em lugar nenhum do mundo. Viajo bastante – Paris, Berlim, Nova York, Los Angeles, Santiago, Buenos Aires, até Tóquio. É verdade que, em todas essas cidades, o metrô é peça fundamental do transporte urbano, e não só para raia miúda, como aqui. Vocês estão cansados de ver executivos com suas pastas no metrô, em filmes americanos. No Brasil, o cara tem de ter o carro do ano (seu acordo com a firma prevê). Se for visto no metrô ou no ônibus, com certeza será fracassado. Nunca vi, em lugar nenhum do mundo, quatro ruas seguidas na mesma direção, o que não dá chance a quem quer ir em outro sentido. Chama o Leonardo, socorro! Enfim, desabafei. Há tempos queria postar isso, mas achava que não tinha nada a ver com o assunto do blog. Vamos fazer com que tenha. No começo dos anos 70, após Meu Tio, sua crítica à desumanização da arquitetura moderna, e Playtime, outra crítica à desumanização do mundo moderno, onde a padronização esmaga a individualidade, Jacques Tati fez um filme que se chama Traffic no original e no Brasil ficou sendo As Aventuras de M. Hulot no Trânsito Louco. Tati morreu há 25 anos, em 1982. Se estivesse vivo, e em São Paulo, bastaria colocar sua câmera em qualquer esquina, na hora do rush, para captar as gags visuais que tão laboriosamente criou para mostrar o horror do trânsito, decorrência da massificação do carro – que nos primórdios da comédia, com Chaplin e Harold Lloyd, era um bicho doméstico a participar da diversão. É divertido para quem olha. É um sufoco para quem passa horas do dia dentro do carro, no trânsito. Vai piorar. Ora, se vai – afinal, a cidade está com déficit de carros…